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De crônica e cronistas
Página publicada em: 19/11/2008
Nelson Hoffmann*
"Prosa fiada" ou "arte ingrata"? Afinal, o que é a crônica? É o que Nelson Hoffmann também se pergunta a partir da leitura de Péricles Prade, Carlos Drummond de Andrade, José Mendonça Teles e José Ribamar Garcia
 
 
Sempre que me pedem uma crônica, pergunto-me: o que é crônica?
 
A etimologia da palavra aponta para o grego, tendo no “tempo”, khronos, seu elemento de composição. Daí, passando  pelo latim, chronica, a definição do Aurélio: narração histórica, feita por ordem cronológica. Cronológica, isto é, “segundo a ordem dos tempos”.
 
É com esse sentido e para o exercício dessa missão, que são nomeados os grandes cronistas do reino português, ao fim da Idade Média. E, mesmo depois, quando o Brasil já está descoberto. São esses cronistas que documentam e relatam os feitos de Portugal pelo mundo a fora. É isso, também, o que faz Pero Vaz de Caminha, ao anunciar, em carta ao rei D. Manuel, o sucesso da empreitada de Pedro Álvares Cabral e registrar as primeiras impressões colhidas em terras recém descobertas.
 
É também nesse sentido que Péricles Prade enquadra no gênero crônica  o seu livro sobre Galileu Galilei: Crônica do Julgamento de Galileu: Poder & Ciência. Com objetividade jornalística, o autor historia os fatos que envolveram o cientista e sua teoria heliocêntrica: antes, durante e depois. Tudo é centralizado no processo do julgamento de Galileu, ponto de convergência e irradiação dos fatos.
 
Péricles Prade, porém, não fica só no relato dos fatos que compõem o processo. Da questão particular do julgamento, o autor parte para a análise global do divisor de águas histórico que foi o “Caso Galileu”. E põe em cheque o eterno choque entre “Poder & Ciência”. De um lado, a liberdade da busca do saber para a superação de limites; do outro, o temor da autoridade entronizada, sentindo a ameaça do conhecimento. Assim, o autor ultrapassa a crônica para ingressar no ensaio.
 
Crônica? O que é?
 
Há quem diga que a crônica, como é praticada no Brasil, é única. Talvez seja. É certo, pelo menos, que tenha definições muito próprias, muito suas, muito brasileiras. O próprio Carlos Drummond de Andrade, em título de livro, chegou a redefinir a crônica: De Notícias e Não-Notícias Faz-se a Crônica. Observe-se: de “não-notícias” também. E Vinícius de Moraes decreta-a  prosa fiada. Mas reconhece: é uma arte ingrata.
 
Vê-se: há crônicas e crônicas. E cronistas e cronistas.
 
Conheci dois novos cronistas — novos, para mim: Mendonça Teles e Ribamar Garcia, ambos José. O primeiro é de Goiás; o segundo vem do Piauí. Do primeiro, li Crônicas da Campininha; do segundo, Além das Paredes.
 
O livro de José Mendonça Teles é coisa gostosa de se  ler. Tem sabor, tem cheiro. Tem sentimento, tem reflexão. Tem memória, tem infância, tem amizade, tem namoradas, tem futebol, tem sonhos, tem vida. É leve, profundo. Risonho, triste. Prende, enrodilha, não larga. Até o fim. E, lido, a gente continua degustando.
 
José Ribamar Garcia nos leva em viagem pelo Brasil. As crônicas são curtas, francas, diretas. Algumas sequer chegam à meia página. E são pequenas obras-primas. Todas, pequenas ou maiores, demonstram o invulgar talento desse piauiense radicado no Rio de Janeiro. Em todas, o ambiente é pincelado com rapidez; por vezes, só referência. O diálogo é constante, particulariza personagens, desenvolve a história e colore o cenário. E o homem que emerge das crônicas é um brasileiro que poucos conhecem. O livro é primoroso.
 
Se há quem diga que a crônica praticada no Brasil é única, há também quem afirme ser a crônica um gênero “menor”. Por que, então, permanece, cresce? Por que imortaliza autores, é lida e relida com afinco, afã? Por quê?
 
A crônica é humana. É cotidiana, lugar-comum, chã. É gente, é fato, é tempo. É vida. É vida, é crônica. É crônica, é humano. 
 
Roque Gonzales, RS, setembro/1999.
 
_________________
*NELSON HOFFMANN é professor, escritor e crítico literário do Rio Grande do Sul traduzido para várias línguas; autor, entre outros, de Eu vivo só ternuras (novela) e O homem e o bar (romance)


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» Hernâni Donato

Hernâni Donato já foi chamado de "o homem dos sete instrumentos". Isto porque, aos 89 anos de idade, membro da Academia Paulista de Letras, é autor de mais de 70 livros, nos mais variados campos da atividade humana, indo da literatura infanto-juvenil à biografia, da historiografia aos costumes, da pesquisa à divulgação científica. Entre as numerosas traduções que realizou, destaca-se a da "Divina Comédia", de Dante Alighieri, em prosa e para divulgação entre o povo. Mas foi no romance que se deu a perfeita combinação do observador minucioso, na linha do cientista social, com o escritor de estilo claro e elegante. É o autor de "Selva Trágica", "Chão Bruto", "Rio do Tempo", "O Caçador de Esmeraldas" e "Filhos do Destino", sucessos editoriais nas décadas de 1950 e 60. Alguns críticos, como Abdias Lima (“Correio do Ceará”, 2/2/1977, Fortaleza, CE), aproximaram Hernâni Donato de Erskine Caldwell e John Steinbeck, a geração norte-americana da revolta, o Caldwell de "Chão Trágico" e o Steinbeck de "As Vinhas da Ira".

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