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A literatura que vem das selvas brasileiras / ENTREVISTA
Página publicada em: 01/05/2010
Selmo Vasconcellos
É do convívio com índios e cabloclos das selvas da Amazônia, onde nasceu, que o escritor brasileiro Nicodemos Sena extrai a matéria-prima com que tece os seus romances. Estreou em 1999 com o romance "A espera do nunca mais", uma saga de 876 páginas, que ganhou o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 anos (Rio de Janeiro). Nesta entrevista, Nicodemos Sena fala de sua origem amazônica e dos autores e livros que lhe influenciaram, e dá conselhos aos novos escritores. (Entrevista publicada no jornal "Alto Madeira", Rio Branco do Acre, 23/03/2010)
SELMO VASCONCELLOS entrevista NICODEMOS SENA
 
 
SELMO NASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?
 
NICODEMOS SENA - Fui fisgado pela literatura ao ler, aos 13 anos de idade, o romance Ressurreição, de Machado de Assis. Nessa época, as espinhas começavam a despontar em meu rosto e os livros tornaram-se o meu “esconderijo”. Li tudo da pequena biblioteca do meu tio Olindo Neves, professor de português em Santarém, município do oeste do Pará, onde nasci e vivi até 1977. Neste ano, vim para São Paulo estudar e trabalhar... e sofrer no primeiro ano como operário da indústria têxtil, sem nunca desistir do meu sonho de ser um dia escritor. Imagina! Ser escritor num país como o Brasil, onde não se dá nenhum valor ao pensamento que brota do povo! Se eu soubesse que aos 51 anos o sonho de ser um “escritor brasileiro”, assim como Tolstói foi um “escritor russo”, poderia ter se transformado num pesadelo... Pois, com o golpe militar de l964, que entregou o Brasil ao grande capital, nuvens de vorazes ‘gafanhotos’ começaram a roer a nossa Amazônia e muitos se acanalharam e passaram a se envergonhar de serem brasileiros.
 
S.V - Quais os escritores que você admira?
 
N.S - Depois de Ressurreição, vieram Os miseráveis, de Vitor Hugo, Camilo Castelo Branco e os “românticos” brasileiros. O Machado de Assis das Memórias póstumas de Brás Cubas e de Dom Casmurro foi uma descoberta, mas Vidas secas, de Graciliano Ramos, foi um murro na cabeça. Enfim, a literatura dava um salto qualitativo, da revolta piedosa para a fria razão, sem nenhum prejuízo para a Arte. O ódio ao Soldado Amarelo e a resignação de Sinhá Vitória produziram um clarão no meu entendimento. Como se um raio me partisse ao meio, compreendi o sentimento do homem corajoso e sensível mas forçado a se amesquinhar num ambiente hostil. Entretanto, salto maior aconteceu aos 19 anos de idade, já em São Paulo, quando conheci os atormentados e delirantes personagens de Dostoiévski, o qual é erroneamente chamado por muitos de um “escritor realista”, pois é o autor de maior imaginação que eu já li, que vai além da descrição desse mundo visível e palpável tão conhecido por todos. Sem dar-lhe o crédito, muitos escritores se inspiram nele. Metamorfose de Kafka, por exemplo, é como que o desenvolvimento de um dos tenebrosos delírios do tísico Hipolit, personagem de O idiota. Maurice Maeterlinck deve ter lido Notas do subsolo para colocar O pássaro azul como título de sua famosa peça. O engraçado é que estes autores e outros que beberam em Dostoiévski são considerados em geral autores de textos fantásticos ou absurdos, o que prova que imaginação e “realidade”, e a própria vida, caminham juntas. Também admiro muito o Dom Quixote, de Cervantes, que fundou a narrativa moderna, e Guerra e Paz, de Leon Tolstói, o grande épico russo, mas é em Dostoiévski, outro russo genial, que encontro, em estado quase puro, no vazio das situações e no silêncio das personagens, os mesmos arquétipos que me acompanham desde a infância e que aparecem em meus livros, como, por exemplo, o do índio velho sentado na beira de um rio sem nome e sem nenhuma importância, fumando o seu cachimbo e coçando os culhões, com os olhos perdidos no nada, de onde vozes e vultos, que só ele ouve e enxerga, conversam com ele numa linguagem que a humanidade já esqueceu: a linguagem dos anjos e dos demônios, e dos loucos. É este homem que aparece no começo do A espera do nunca mais, meu primeiro romance, e reaparece como narrador de A mulher, o homem e o cão, na mais absoluta solidão, e põe-se a narrar a sua incompreensível história a um ouvinte que pode bem ser você ou eu ou todos nós juntos, ou o próprio velho ou “ninguém”.
 
SELMO VASCONCELLOS - Você está escrevendo um novo livro?
 
N.S - Escrevo um romance enorme, pois só realizei um quarto do plano e já tem 200 páginas. O título provisório desse livro é a resposta que Ulisses dá ao Ciclope: “Meu nome é ninguém”. A história do homem obrigado a apagar os seus próprios passos e a esconder a sua identidade a fim de escapar não apenas do tirano que ele vê à sua frente, mas daquele que está dentro de si mesmo e quer controlar a sua mente. E nesse ponto de fuga desesperado encontram-se tanto o homem primitivo, que aparece nas lendas e mitos da minha terra amazônica, que vive isolado e solitário mas em perfeita paz consigo próprio e com o mundo, como também o homem “moderno” ou “pós-moderno” fragmentado e esquizofrênico. Como vês, a literatura dos livros, que descobri aos 13 anos, fez-me tomar consciência de que a verdadeira literatura nasce bem antes nas narrativas orais do nosso povo, que até hoje me nutrem.
 
S.V - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores?

N.S - Leiam. Leiam. E releiam... Nos livros e principalmente na Vida. Ouçam mais do que falem. Aprendam a ouvir o silêncio. Afastem-se do burburinho do mundo sensível e da "vida literária". Aprendam a distinguir a Voz entre as tantas vozes, pois às vezes o que parece ser a mais lúcida realidade não passa de fantasmagoria. Desconfiem sempre da “realidade” e nunca se envergonhem de sonhar, pois é dentro do sonho que cada um pode encontrar o “centro do mundo”, o “seu” centro, onde nada poderá atingi-los.


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» Ricardo Guilherme Dicke

Considerado um dos melhores romancistas brasileiros por alguns dos principais críticos literários do país. Com "Deus de Caim", Dicke foi um dos ganhadores do Prêmio nacional WALMAP de Literatura de 1967.

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