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Nicodemos Sena
Página publicada em: 01/03/2008
Pelo estilo vigoroso e a temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos), já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Veríssimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos e o peruano José María Arguedas. Seu primeiro romance, "A Espera do Nunca Mais - Uma Saga Amazônica" (876 pág), conquistou, em 2000, o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos.
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NICODEMOS SENA nasceu no dia 8 de julho de 1958, em Santarém, Pará, Amazônia brasileira, passando parte de sua infância entre índios e caboclos, na região de fronteira entre os estados do Pará e Amazonas. Dessa experiência – que marcou para sempre a sensibilidade do escritor identificado com a terra e as gentes amazônicas – extrairia a matéria-prima com que comporia os seus romances.
 
Em 1977 vai para São Paulo, formando-se em Jornalismo, pela PUC (Pontifícia Universidade Católica), e em Direito, pela USP (Universidade de São Paulo).
 
Em 1999 faz sua estreia literária com o romance A espera do nunca mais – uma saga amazônica (Editora Cejup, Belém, 876 pág.).
 
A crítica recebe A espera do nunca mais com entusiasmo. No Pará, o historiador, floclorista, musicólogo e crítico Vicente Salles proclamou: “Com A espera do nunca mais, pela primeira vez temos, na ficção, o caboclo como agente da história, o índio que se destribalizou, que vive entre dois universos que se opõem e se excluem”. (“O caboclo como agente da história”. A Província do Pará. Belém, 15 mar. 2000).
 
No Rio de Janeiro, escreveu a poeta, crítica e tradutora Olga Savary: “É uma alegria quando nos deparamos com um livro como A espera do nunca mais, esta extraordinária saga amazônica, narrada com sedução, seriedade, poesia. Forma e estilo são impecáveis nessa estréia, que nem estréia parece, de tão madura. Uma lição de literatura e brasilidade”. (“Amazonense faz boa ficção com ‘anos de chumbo’ e choques entre culturas”. O Globo. Caderno Prosa & Verso. Rio de Janeiro, 3 mar. 2001).
 
Em São Paulo, escreveu o professor, crítico e escritor Oscar D’Ambrosio: “A espera do nunca mais desafia e devora o leitor desde o início. Feito sucuriju, abre sua bocarra e obriga a penetrar num universo denso. Não adianta resistir. Uma vez dentro da boca deste livro-serpente, o destino é conhecer os seus interstícios plenos de um fazer artístico solidamente urdido, elaborado com mãos de mestre”. (“Uma extensa e densa aula de Amazônia”. Jornal da Tarde. Caderno de Sábado. São Paulo, 20 maio 2000).
     
Em 2000, A espera do nunca mais conquista o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).
 
Ainda em 2000, Nicodemos Sena volta a morar na Amazônia, exercendo o cargo de diretor de redação do jornal A Província do Pará (Belém). Em 9 de novembro do mesmo ano, profere a palestra “Mito e imaginação no romanceiro amazônico” (na Academia Paraense de Letras). E, em 14 de outubro, a palestra “O romance e o processo de criação” (na Faculdade de Letras da UFPA na cidade de Castanhal).
 
Em 2001 é um dos escritores convidados pela IV Feira Pan-Amazônica do Livro (Belém), onde fala, em 22 de setembro, sobre o tema “O romance na Amazônia”.
 
Em 2002 Nicodemos Sena aparece no Dossier Amazónico publicado na revista literária portuguesa “Construções Portuárias” (nº01), no qual foi incluído um trecho do seu segundo romance A noite é dos pássaros, ao lado de importantes escritores da Amazônia, entre os quais Max Martins, João de Jesus Paes Loureiro, Vicente Franz Cecim, Age de Carvalho, Benedicto Monteiro e Benedito Nunes.
 
Em 2003 A noite é dos pássaros é publicado em forma de folhetim, em dezoito episódios semanais, de 3 de abril a 31 de julho, no jornal O Estado do Tapajós (Santarém do Pará) e na revista eletrônica portuguesa “TriploV”. Ainda em 2003, A noite é dos pássaros é publicado em formato livro (Editora Cejup, 136 pág.). No mesmo ano fragmentos de A noite é dos pássaros são publicados nas revistas “Palavra em Mutação” (nº02) e “Storm-Magazine”, ambas de Portugal.
 
Ainda em 2003, A noite é dos pássaros conquista o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e, em 2004, Menção Honrosa no prêmio José Lins do Rego, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).
 
Em outubro de 2003, Nicodemos Sena participa, como escritor convidado, do II Simpósio Multidisciplinar promovido pela UNIFAI/Centro Universitário Assunção, em São Paulo, onde profere  palestra sobre o tema “A função da literatura em face da ética e as novas tecnologias”.
 
Em maio de 2009, é lançado em São Paulo A mulher, o homem e o cão (Ed. LetraSelvagem, Taubaté-SP, 152 pág.).
 
Os romances de Nicodemos Sena mereceram comentários em grandes jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Goiânia, Brasília e Belém do Pará (“O Globo”, “O Estado de São Paulo”, “Jornal da Tarde”, "Folha de São Paulo", “Estado de Minas”, “Hoje em Dia”, “A Tarde”, “O Liberal”, “A Província do Pará”, “Jornal Opção”, “Caderno Brasília” etc) e da Cidade do Porto, em Portugal (“O Primeiro de Janeiro”).
 
Sobre a ficção de Nicodemos Sena já se manifestaram importantes críticos e escritores brasileiros, entre os quais Olga Savary, Antonio Olinto, Nelly Novaes Coelho, Oscar D’Ambrosio, Antonio Carlos Secchin, Dirce Lorimier Fernandes, Fábio Lucas, Ronaldo Cagiano, Adelto Gonçalves, Acyr Castro, Manoel Hygino dos Santos, Beatriz Bajo, Nelson Hoffmann, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Nejar, Tanussi Cardoso, Bruno Zeni, Vicente Salles, Benedicto Monteiro, Ildefonso Guimarães, Aluysio Mendonça Sampaio, Edivaldo de Jesus Teixeira, Enéas Athanázio, Antonio Possidonio Sampaio e Clauder Arcanjo. (Obs: a fortuna crítica de Nicodemos Sena pode ser acessada através dos links listados no fim desta página).
 
Nicodemos Sena é nome reconhecido fora da Amazônia, tornando-se verbete na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001).
 
Por seu estilo vigoroso e a temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos), Nicodemos Sena já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Veríssimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos e o peruano José María Arguedas.
 
Nicodemos Sena reside, atualmente, na cidade de Taubaté, Estado de São Paulo, Brasil. 
 
 
TRECHO DE ROMANCE:
 
O triste fim do búfalo rosilho
 
“Queres saber que fim levou o búfalo rosilho? Preferia não contar, é muito triste. Ainda hoje sofro quando me lembro. Insistes? Está bem, eu te conto o triste fim do meu búfalo rosilho”. E, como se o tempo não contasse, sem sofreguidão nem medo de perder a atenção, à maneira dos vaqueiros — se ninguém lhe ouvisse, dava no mesmo — foi falando para si mesmo, como se ensaiasse um monólogo que um dia ele declamaria à sua amada, à luz das estrelas, talvez à volta duma fogueira, ou à mesa de um bar, ou na cama, depois de amá-la como jamais amara outra mulher.
 
“Era novembro, quase dezembro, quando meu pai me foi buscar em casa dos Alarico. Se eu adivinhasse o que encontraria na ilha, não teria ido. Já em viagem, estranhei que meu pai nada soubesse do búfalo rosilho. ‘Tá por lá, sabe onde; vai lá alguém saber? Aquele animal tem dono?’ — desconversava quando eu, vira-e-mexe, lhe indagava. Às vezes, fingia não ouvir minha pergunta; por fim, quando o barco já contornava a ilha rumo ao norte, onde ficava nossa fazenda, o meu velho, olhando-me severamente, admoestou-me: ‘Julião, esquece o búfalo rosilho, o bicho não se liga a ninguém’.”
 
“Havia algo errado, pressenti. Mas se ele me contasse a verdade, de tão malvada e absurda, não teria crido. Acho que ele calou não por isso, mas por medo, não de mim, um pirralho, mas da minha reação, pois meu pai sabia da minha afeição por aquele búfalo danado, que me era como um irmão mais velho, livre e arredio, que não se misturava com fedelhos.”
 
“E havia muita coisa errada, isso logo percebi, antes mesmo de desembarcar. Era novembro, quase dezembro, e há dois dias beirando a ilha, eu não vira sequer uma terroada. Em vez das pisadas do gado no terreno seco e rachado pelo sol, o que eu via até onde os olhos alcançavam eram campos ainda alagados, onde as manadas se atolavam no tijuco amolecido. Águas ainda de julho? Então naquele ano não houvera o verão? Vi manadas inteiras ainda suspensas em marombas, quando a maré alta repontava. Mas as marés não explicavam as marombas em novembro, a invernia não vai de abril a julho?”
 
“Não conto a alegria de novamente pisar a terra encharcada do Marajó, sentir o cheiro de lodo e de capim, a pele queimando ao sol escaldante, sem língua, porém, para lamber tanta água. Nem conto a satisfação de encontrar de novo o meu velho Tião, que — desde que nasci e depois já sem mãe — me fora o verdadeiro pai, melhor que o de sangue, que não respondia a perguntas e se afastava quando lhe pedia afeto.”
 
“Tião, meu velho, o que se passou por aqui? — perguntei-lhe à noite, pois não conseguia dormir sem saber do que já bem sabia, não com detalhes, mas sabia. Pois o Tião, desde que cheguei — naquela tarde ele nem foi ao campo, mandou o Lazário e os outros vaqueiros —, conversou com o pai e comigo sobre tudo, mas não tocou no búfalo rosilho bangoleiro. E o seu silêncio já dizia tudo, ou quase tudo, e agora eu queria conhecer esse quase. Um longo e doloroso quase. Ainda mais contado pelo Tião, que sabia narrar sem desperdiçar palavra, sem perder o ritmo nem o ouvinte. Ele começou assim, como quem não vai dizer nada, por um ponto qualquer.”
 
“O Nhozinho sabe a periantã? Se sabe! Me desculpe a pergunta à toa, é que Nhozinho ficou um ano na cidade e meio já parece dotô. Que ano, Nhozinho! O balsedo se desgarrando das margens, a canarana arrastada louca pela correnteza descendo os rios, sabes as ilhinhas flutuantes? Se sabe! E era apenas maio, Nhozinho! Se fosse julho, vá lá, mas maio! Desde que apareci no mundo não vi nada igual. Aguapé, matupá arrancados das beiras dos lagos iam de bubuia não sei pra onde. No começo se agarravam nos tesos, onde a malhada se entocava, amedrontada e arredia. Eu, o Lazário, o Argemiro, o Manduca, e o resto da vaqueirama, e até o Nhô teu pai (!), em riba dos cilheiros, já com água pela barriga, ainda fizemos fechação durante uma semana. O Nhô disse que era só um repiquete das águas, toró passsageiro lá pras ribas do Amazonas, logo as águas iam baixar pra continuar subindo devagar. A gente não desmentia, mas via o Nhô Domiciano cada vez mais cuíra. E ficou inquieto quando os tesos sumiram e tudo virou perau. Os cavalos nadavam que nem capivara e se afogavam, o vaqueiro voltava a braço. Isso de um dia pro outro, sem aviso. E um sol dos infernos, parecia que o satanás cuspia fogo pelo cu, e a água nem aí pra ele. Crescia, crescia, crescia... E era apenas fim de maio! Pensei que fosse o fim do mundo, mas o Lazário garantiu que Deus prometeu não afogar o mundo mais de uma vez, da próxima a destruição seria pelo fogo. E não havia mais mondongo; até o lago Arari desapareceu, virou mar. Igapó? Nem falar, Nhozinho! As árvores haviam sumido, só a copa dos açaizeiros mais altos resistiam à força das águas, cocurutos desgrenhados onde os pássaros vinham se abrigar, mas por pouco tempo, pois os açaizeiros eram arrancados do solo e iam de bubuia não sei pra onde. Nhô Domiciano, que nem um louco, punha o seu cilheiro pra nadar, procurando os tesos. O Mundico, o vadio, a puxar saco do Nhô teu pai, com o cu na mão de tanto medo, escafedeu-se de noite, arribando da fazenda numa montaria. Depois eu conto o que aconteceu pro filho da mãe, bem feito! Aos poucos fomos trazendo os búfalos, primeiro os pretos, covardões, morrendo de medo de morrer. A gente ia fazendo o costeio n’água, eu e o Lazário nos cilheiros, Nhô Domiciano e os outros nos cascos, pra poupar os cavalos. Os rosilhos se escafediam da gente e iam de bubuia de uma restinga pra outra, até não terem mais onde pôr as patas, então os brabos preferiam morrer nadando do que se dar ao costeio.”
 
“O rosilho morreu, Tião? Ele morreu?”
 
“Calma, Nhozinho; mal comecei a estória. Mas te digo que ele não morreu, o danado. Primeiro enchemos de búfalos o rancho dos vaqueiros, depois a casa-grande. Imagina que Nhô Domiciano, misturado aos vaqueiros, numa noite dormiu no capim que a gente cortava pros bichos! E a água subia, subia... Não era repiquete coisa nenhuma. Enquanto Lazário e o Argemiro procuravam os búfalos no alagado, eu e Nhô Domiciano começamos a levantar às pressas a maromba, pois o rancho e a casa-grande já tavam lotados e também logo o aguaceiro cobria os assoalhos. Fincar barrotes na tabatinga, com água pela cintura, não é fácil, tendo ainda de tirar sanguessugas das pernas. O Lazário se enganou mesmo, ou lhe contaram a estória errada, ou Deus enganou o tal Noé, pois parecia que o fim do mundo ia ser de novo pela água. A chuvarada caía sem parar. E o diabo escondeu a bunda com medo da água que ia subindo, subindo... Em vez de mandar brasa, o demo começou a peidar, com raiva de deus, que descumpriu sua palavra. Água e ventania, coisa medonha, Nhozinho. Aquilo não era mais reponta, pois não havia mais maré alta nem baixa, mas só um oceano. A dúvida era se o Amazonas tinha invadido o mar ou se o mar havia engolido o Amazonas. De qualquer jeito, a gente tava perdido, não sabia o que fazer, se acabava a maromba, se ia buscar o gado extraviado, ou se agarrava o capim que passava perto levado pela correnteza. Ia fazendo de tudo um pouquinho, num desespero de ver. Quando acabamos a maromba e passamos o gado do rancho e da casa-grande pra ela, metade da malhada ainda tava perdida sabe Deus onde. E tudo rosilho!”
 
“E o bangoleiro, Tião? Acharam ele?”
 
“Calma, Nhozinho, eu conto. Enfrentando a maresia com os cascos, o banzeiro violento do mar, conseguimos arrastar muitos rosilhos, mas a maioria se perdeu.”
 
“E o bangoleiro, Tião, se perdeu?”
 
“Calma, Nhozinho, eu conto. O bangoleiro deixou-se trazer até perto da maromba, mas não quis subir.”
 
“E daí, Tião, ele morreu?”
 
“Calma, Nhozinho, eu conto. O bangoleiro se encostou num esteio da maromba e ficou ali dez dias sem se mexer; queria que o Nhozinho visse. Que animal inteligente e opinioso! Nhô Domiciano mandou todos caírem n’água pra arrastar o rosilho pra maromba, pois tinha o risco das piranhas comerem ele. Mas ele lutou, esperneou, mergulhou, ameaçou sumir no mundão de água, até que deixamos ele em paz e ele voltou a se encostar no esteio e se aquietou; dormia só com o nariz de fora. E nem comer queria. Só depois de cinco dias o animal aceitou um pouquinho de capim que Nhô Domiciano ele mesmo ofereceu pro bicho. Nhô Domiciano parecia gostar daquele animal, senão não tinha feito com ele o que fez.”
 
“E o que meu pai fez com ele, Tião?”
 
“Calma, Nhozinho, eu chego lá. Se o Nhozinho tivesse aqui, chorava. Os rosilhos passando de bubuia, inchados que nem baiacu, já meio fedendo, com urubus sobre eles, vinham mortos sabe lá de onde, pois a ilha não tinha mais norte, nem sul, só água. Mas o Nhozinho também ia rir.”
 
“De quê, Tião?”
 
“Do filho da puta do Mundico.”
 
“Mas ele não fugiu?”
 
“Sim, mas depois de uns dez dias voltou, mas de bubuia, de papo pro ar, no maior sossego, tirando uma soneca das que ele gostava, com um urubu em cima do barrigão inchado, a cara todinha bicada, aquela cara sonsa. Nhô Domiciano mandou o Lazário empurrar o sem-vergonha com um varijão, pois se engatou embaixo do assoalho da casa-grande, como se pedisse pra ser aceito de volta. A correnteza arrastou ele sabe lá pra onde; pro céu é que não foi.”
 
“E o rosilho, Tião?”
 
“Ah! O rosilho, sim, o rosilho. Pois é... Após dez dias a água deixou de crescer, a chuva foi afinando, mas demorou pra começar a descer. Era já final de junho, mas nem julho chegou! O capim ia acabando nas baias, logo o gado das marombas ia começar a morrer. A gente ainda saía com os cascos pra catar algum balsedo, mas desistimos, o mar levou todos os periantãs, sabe lá pra onde; a maromba e a casa-grande pareciam duas pequeninas marrecas solitárias na imensidão das água. O rancho dos vaqueiros se afogou. Dava pena de ver Nhô Domiciano, mais calado que ele próprio. Acho que vi ele um dia chorando. Dá raiva ver um homem como Nhô Domiciano chorando. E eu pensava que Nhô Domiciano não tinha coração. E como tem! E como também gostava do búfalo rosilho!”
 
“Gostava, Tião? Então o rosilho morreu?”
 
“Calma, Nhozinho, eu conto.”
 
“Caralho, Tião! Então não enrola!”
 
“Essas coisas a gente pode dizer assim num zás, Nhozinho? O Nhô teu pai mandou o Lazário, de casco, tentar achar a casa-grande da fazenda Bonfim. Depois de doze horas ele voltou e disse que morreu lá muito búfalo, e que os pássaros e outros animais selvagens se amontoaram num teso que sobrou lá pro sul da ilha. Mas não dava pra levar os búfalos pra lá, era muito longe e o banzeiro não cessava. Nhô Querêncio, dono da fazenda Bonfim, esperava ajuda da cidade, barcos pra pegar o gado, ou pelo menos trazer capim. A gente já andava comendo os animais mais baqueados, que iam morrer de qualquer jeito de fome e cansaço. Foi então que Nhô Domiciano mandou não darem mais capim pro búfalo bangoleiro. Parecia magoado com o animal que não confiava nele. Pois pra Nhô Domiciano cada búfalo é como gente. Gente ruim, mas gente. Na manhã do quarto dia o rosilho havia desaparecido. Pensamos que, já sem forças, tinha sido tragado pela correnteza.”
 
“E ele morreu, Tião?”
 
“Não, eu conto.”
 
“Então desembucha, Tião.”
 
“Bem — encurtando o caso, Nhozinho —, em julho as águas começaram a baixar. Só em julho, Nhozinho! Noutros anos, já estava quase tudo de fora, mas este ano só havia água. Ainda bem que a vazante, nos primeiros quinze dias, foi rápida. A gente começou a enxergar, aqui e ali, longe, ilhotas de capim que apareciam de repente, vindas não se sabe de onde. A cada dia ficava uma marca nos esteios da maromba. Um, dois, três palmos... Então a gente ia buscar capim nessas ilhotas, eram os cabuchos mais altos das restingas e tesos que começavam a aparecer. Mas era pouco capim pra sustentar todos os animais, que continuavam morrendo. Até que as aves foram aparecendo, e Lazário, alegre, falou do urubu de Noé, que foi e não voltou, avisando o velho que tinha achado terra. Eram garças, marrecas, patos-do-mato, jaçanãs, que vinham, não se sabe de onde. Da parte mais alta da ilha, pro sul, onde os animais se empoleiraram, depois a gente soube.”
 
“E o búfalo rosilho, Tião?. Ele morreu mesmo?”
 
“Não, Nhozinho; não desta vez.”
 
“Então ele morreu depois? Fala logo, Tião!”
 
“Calma, meu Nhozinho, eu conto. Em agosto, a ilha ressurgiu, quer dizer, não a ilha, mas milhares de ilhinhas. Em setembro, as ilhinhas se uniram, formando ilhas maiores. Em outubro, os animais tinham deixado as marombas, só não as búfalas que esperavam cria pra aqueles dias; chapinhavam que nem bêbados pelo lodaçal, os mais fracos ainda morreram, nunca os urubus passaram tão bem. Um belo dia, na fazenda Santa Inês, quem apareceu? O teu búfalo rosilho, Nhozinho!”
 
“E cadê ele, Tião?”
 
“Calma, Nhozinho. Queria que o Nhozinho visse o animal: gordo e formoso, mais arretado que antes. Nhô Domiciano, que tem coração, mas de pedra, quando soube do bangoleiro, mandou dizer ao Nhô Dioclécio da Santa Inês que fizesse do bicho o que bem entendesse. Já tratou o animal de bicho e disse que o bicho era o próprio satanás.”
 
“E daí, Tião, o que o Sr. Dioclécio fez com o rosilho?”
 
“Nada, não fez nada, Nhozinho. A ilha se levantava do fundo do oceano, mais linda que antes. O verde brotava da lama. Jacarés, jibóias, tartarugas passeavam entre as pernas da gente sem medo, e a gente também nem ligava, parecia o começo do mundo. Os búfalos, com água pela canela, se enlameavam no campo, mais uma vez livres; comiam o capim dia e noite, babando, como se comessem pela primeira vez. Mas o prejuízo foi enorme, a ilha está coberta de carcaças de tudo quanto é bicho. Nhô Domiciano perdeu quase a metade da malhada.”
 
“E o rosilho bangoleiro, Tião? — eu insistia, no auge da expectativa e do desespero. Foi então que o Tião, sabendo que eu já sabia, começou a narrar o final da tragédia.”
 
“Foi no começo de outubro, quando a tormenta da natureza havia passado, que a desgraça do rosilho verdadeiramente começou.”
 
“Chegou uma gente da cidade — continuou Tião —, num barco bonito, branquinho que dava gosto, cheio de luzinhas no mastro, com a bandeira brasileira pendurada no mastrinho da popa. Diz-que vieram ajudar os criadores do Marajó a multiplicar o rebanho. Por que não vieram antes, quando Nhô Domiciano precisava salvar o rebanho? Eu perguntei, ninguém respondeu. No dia 5 de outubro, dia de São Benedito, quase todo mundo da ilha foi pra fazenda de Nhô Dioclécio; ia dar uma festa de arromba e, depois de tanta desgraça e tristeza, a alegria devia chegar. Diz-que também um dotô, que veio da cidade no barquinho branco, ia falar. Fomos todos pra Santa Inês bem cedinho, menos o Argemiro, o vaqueiro mais novo e bem-mandado, que lá deve não ter gostado de ficar, mas era o de menor regalia e tinha bezerrinhos pra vigiar. Nhô Domiciano na frente, cossando o cilheiro, a gente atrás. De vez em quando tinha que desviar de alguma carcaça, onde os urubus rondavam a gente dobrava. Do outro lado do Arari — e olha que o lago ainda estava muito largo! — a gente já enxergou a preparação que ia ser a festa. Coisa que nunca se viu. Na frente da casa-grande tinham feito um arco-íris de papeizinhos cortados como bandeirinhas — verde, amarelo, azul, branco — e um jirau de tábuas, ninguém sabia pra quê. Não fomos os primeiros, e o pessoal continuou chegando de tudo quanto era canto. Do Bonfim, Santa Isabel, Nossa Senhora das Mercês, Santana, São Miguel, Assunção, da fazenda Arari, e Dos Remédios. Enquanto os patrões faziam a roda na varanda da casa-grande, assuntando ainda na desgraça, o tal dotô lá com eles, falante e galante, todo de branco, diz-que médico de bicho; como é que chama, Nhozinho? Isso! Que palavra mais feia! Lembra salafrário. Enquanto eles lá conversavam entre eles e o dotô, a vaqueirama se divertia no terreiro esfolando quatro búfalos pra festança. E o povo ia chegando, mas tudo homem, chega fedia. Mas diz-que Nhô Querêncio, da fazenda Bomfim, tinha contratado umas vinte mulheres pra aliviar a moçada, e ninguém duvidava, pois o Nhozinho mesmo perdeu o cabaço num dos forró do Nhô Querêncio; lembra, Nhozinho? Se lembra! Hora dessas Nhozinho me conta das fêmea da cidade? Se conta, Nhozinho conta. Mesmo agora, se o Nhozinho tivesse lá, se metia na roda, ora se metia. A gente ia esfolando os búfalos, estripando, desossando, pondo no molho, preparando a lenha pra hora de assar, fazendo os espetos, cada um querendo ajudar mais que o outro, sem assuntar em nada; não que a cachaça que Nhô Dioclécio distribuía do seu alambique já fizesse zonzeira, mas por que ninguém tinha mais miolo na cabeça desde que soube das vinte raparigas que Nhô Querêncio mandou trazer. O peão pensava com a outra cabeça, aquela sem pescoço nem ombro, e muito menos juízo, e era um tal de nego apalpar o saco pra ver se não havia caído. Lá pelas tanta, o sol cozinhando a cachola, Nhô Dioclécio, com seu melhor terno, o escuro, como um búfalo brabo ao lado de uma garça, apareceu na escada da varanda, ao seu lado o tal dotô; como chama? Não, não é salafrário. Sim, isso aí, Nhozinho. Que palavra! Vou chamar de dotô-garça, todo de branco, é mais fácil. Atrás dos dois, o Nhô teu pai, o Nhô Valdevino, da fazenda Arari, o Valdemar, das Mercês, e assim o resto. Subiram no jirau de tábuas, debaixo das bandeirinhas coloridas, e Nhô Dioclécio, dono da festa, chamou alto a homenzarada. No terreiro, frente ao jirau, uns cem homens, e chegando mais. Nenhuma mulher, pois tanto Nhô Dioclécio, como os outros patrões, tinham filhas na cidade, moças prendadas, e as madames vinham pouco na ilha, e nos dias de festa nunca estavam. E o vaqueiro que tinha sua mulher, se cuidava, vinha só, pra poder variar com as raparigas do Nhô Querêncio, e também com medo da vaqueirama no escuro confundir urubu com meu louro e mandar ver na sua cabocla. Isso aconteceu com o Zelito das Mercês, que hoje cria um filho que é a cara do Cirilo da Assunção. Mas o tal dotô não assuntou nesse porém, pois, depois que Nhô Dioclécio pediu silêncio, o dotô começou o seu palavrório assim, na ponta dos pés, com os dois braços levantados, parecia que ia voar: ‘Meus senhores e minhas senhoras’. Aqui embaixo a vaqueirama toda engasgou o riso, pois o homem merecia respeito, veio da cidade pra ajudar. O Nhozinho me perdoa a ignorância, mas parece quanto mais o homem estuda mais louco fica, e besta, pois não é que o dotô-garça chamou o rosilho de kerebau e o preto de variedade búfalis? Mas eu lhe digo algumas palavras que fiquei repetindo a tarde inteira e não esqueci: laticínios (um cachorro latindo?), terapêuticas (terras pretas?), sanidade (sanitário?), gástrica (gás de tripa?), genealógico (gênio do relógio?), afrodisíaco (flor de quê?), e outras que esqueci. O Nhozinho depois me explica? Se explica! Mas pelo que o Nhô teu pai me disse depois da festa, pelo que fui coletando de um ou outro vaqueiro curioso, e pelo que aconteceu depois, acho que posso lhe dizer do meu jeito o que o tal dotô queria dizer.”
 
“Pelo que o Tião me traduziu do discurso do doutor veterinário, representante do governo do Pará, naquele fatídico dia, ele deve ter dito algo assim: ‘Meus senhores e minhas senhoras. Desde 1890, quando entraram no Brasil, sediados nesta maravilhosa ilha do Marajó, os primeiros 50 búfalos, a população de bubalinos vem crescendo numa velocidade bem maior do que a dos bovinos, graças a inigualável resistência que a espécie possui e a sua grande capacidade de poder transformar alimentos pobres, em leite, carne e trabalho. Meus senhores e minhas senhoras, tenho que aplaudir, em nome do governador do Estado, a desmesurada valentia e o denodado patriotismo destes verdadeiros brasileiros, que se arrojam na faina diuturna enfrentando a natureza mais bruta, pela honra e glória da pecuária nacional. Aos donos de fazendas, como os Senhores Dioclécio, Domiciano, Valdevino, Querêncio... e todos os que aqui se encontram e os que não chegaram e não puderem vir, e a vocês, vaqueiros, valentes e destemidos, que arriscam suas vidas pela grandeza do Brasil, a pátria agradecida rende homenagens. O governo, porém, reconhece ter feito pouco para o incremento da bubalinocultura, mas, feita a mea culpa, arregaça agora as mangas na grandiosa tarefa de transformar a criação de búfalos na principal fonte de desenvolvimento das regiões alagadas do Pará. Para isso, é necessário que se esclareçam ao mercado consumidor a excelência da carne e as vantagens do leite, este de ótimo sabor, levemente adocicado, mais nutritivo e mais rentável na produção de laticínios, além de suas propriedades terapêuticas, difundidas na Ásia, entre as quais se inclui seu uso como afrodisíaco, assim como na cura da úlcera gástrica. Quanto à valorização da carne, esta depende de uma postura mais correta e patriótica dos frigoríficos e revendedores, não discriminando os bubalinos. Em relação ao abate, todas as pesquisas indicam o rendimento de carcaça semelhante ao dos bovinos e, quanto ao consumo, a carne se apresenta no mercado sem diferenciação, como sabor, cortes e modo de preparo iguais à denominada carne de vaca. Além disso, entre as carnes dos bovídeos, apresenta maior sanidade, devendo ser melhor qualificada com vistas à exportação, a partir da premissa de que o búfalo é animal mais resistente a inúmeras doenças. O couro, mais resistente, tem múltiplos usos, desde a indústria de arreios e a indústria de móveis, até na produção de calçados e vestuário. Mas, meus senhores e minhas senhoras, convencer os consumidores das excelências dos produtos de origem bubalina não será tarefa fácil’.”
 
“A vaqueirama, Nhozinho, teve de gritar vivas e bater palmas ao dotô-garça, a mando do Nhô Dioclécio. Mas a mim ninguém enganava: se o dotô e o governo quisessem mesmo ajudar, ajudavam, não precisavam vir dizer. Por que não mandaram barcos salvar as malhadas que se afogavam na enchente? Mas uma coisa eu assuntei, Nhozinho, e não entendi. Por que Nhô Dioclécio e os outros patröes, com mais tirocínio que a vaqueirama, acostumados a negociar na cidade, ficavam ouvindo o dotô e aplaudindo? Havia treta, se havia! O Nhozinho, quando for dotô, não vai ser que nem o garça, pelo amor de deus! Gente boba, fala, fala que fala, e fica toda besta pensando que a gente entende. Acho devia haver só uma língua, pra vaqueiro, pescador, governador, dotô, uma língua só pra todos, a brasileira, que todos entendessem, não do jeito que é; assim o pessoal da cidade ouvia o que a vaqueirama fala; o Nhozinho entende? Se entende! O Nhozinho vai ser um dotô diferente. Mas o garça continuou discursando, Nhozinho. E eu atento nele. Diz-que pro pessoal da cidade comer mais carne e beber mas leite de búfalo e para os donos dos búfalos receber melhor preço; tinha de fazer a gente da cidade gostar dos búfalos, perder a idéia errada de bichos brabos, selvagens, puladores de cerca. E aí, Nhozinho, o dotô-garça começou a puxar saco dos pretos, bichos sim, mas mansos, bem-mandados, por isso escaparam da enchente, e não como os rosilhos, de chifres apontados que nem facão, selvagens, fujões, criadores de caso, puladores de cerca, que preferiam morrer de fome ou afogado a precisar de gente. Diz-que tinha de apurar a raça acabando com os rosilhos. Eu pensei no teu búfalo rosilho, Nhozinho, pois lembrei que Nhô Domiciano pensava que nem o tal dotô. Mas, cá comigo, Nhozinho, eles tão errados, os mansos dão mais trabalho, são frouxos e carecem de mais cuidados, e dão menos cria que os rosilhos, arredios, entocados no tijuco de meu deus, comendo sozinho e se multiplicando que nem diabo, sem precisar de vaqueiro, menos de médico salafrário (!); como mesmo chama o dotô, Nhozinho? Sim, sim, que nome mais feio, Nhozinho! Ah, agora me lembro, depois de mimar os pretos, o dotô diz que o povo da cidade tem preconceito; o que quer dizer esse palavrão, Nhozinho? Ah...é isso? Acho que sei, não é como pensar que toda cobra é venenosa? Amm... entendi, Nhozinho. O dotô-garça também disse que pra minorar a fama de mau e o azar do búfalo ser um bicho negro, era melhor mudar o nome do búfalo para gado São Benedito, e assim, Nhozinho, de bicho pagão, do capeta, virava cristão, protegido pelo santo padroeiro, até meio branco, pois o povo da cidade não gosta de negro.”
“E agora, amada minha, fecha os olhos, porque o fim da estória é só pra se ouvir. Estória do ouvi dizer, contada e não escrita, pois só a memória popular registra essas estórias de búfalos rebeldes e vaqueiros nascendo da lama e na lama sendo enterrados. Pois, se fosses comigo, no dia seguinte, à fazenda Santa Inês, verias com os olhos aquilo que os meus ouvidos, embora descrente, criam. Verias, ah, se verias! Pelo menos dois punhadinhos de cruzes fincadas na tabatinga recoberta de musgos ainda encharcados, que passavam a metade do ano debaixo d’água. Hoje o Tião é estrume dessa lama e tem como lápide a imensidão. Fecha teus olhos, minha amada, que essa estória é pra se ouvir.”
 
“Até hoje me pergunto de onde Tião tirava suas estórias, pois nasceu e, segundo corriqueira sina, também morreu sem nunca ter saído da ilha. Sabia da cidade por Nhô meu pai dizer, e imaginava outras ilhas como o Marajó prá lá do mundão de água, porque duas ou três vezes viu, lá muito longe, as luzinhas de uma coisa se movendo sobre as águas e Nhô Domiciano disse ser um bicho que nem cobra grande, que anda de ilha em ilha, mas nunca quis parar no Marajó. Tião desconfiou que a sua ilha fosse uma ilha muito da vagabunda, indigna do bicho navio. Então quem lhe contou as estórias que eu cresci ouvindo dele? Recordo de uma: na China (imagina na China, Tião na China?!) havia um deus Byres, Rei de Kine ou Niu Wang, personificava o búfalo. Ele era representado por um gigante de cinco metros de altura, a mesma atribuída a Buda. Esse deus tinha chifres, boca e orelhas de búfalo. Como vestimenta, trazia uma capa vermelha (Tião dizia que as baetas dos vaqueiros do Marajó eram a veste de Deus; a gente ria), um capacete, e, como arma, uma lança de três pontas (os vaqueiros, segundo Tião, não precisavam mais do escudo nem da lança desde que os pretos, dóceis, chegaram da Índia, e os rosilhos, apesar de arredios, se tornaram os melhores amigos dos vaqueiros; estórias de vaqueiro, a gente pensava). O deus, segundo Tião, era um guerreiro de muita força, escudeiro especial do Rei de Chou, a quem defendia de seus inimigos. Por essa época, e antes, não existiam bois na terra e o homem não tinha animais para ajudá-lo no seu cultivo. Conseqüentemente, ele passava mal, com muito pouco para se alimentar, ficando às vezes três dias sem comer (os vaqueiros, apesar de paupérrimos, nunca passaram fome na ilha, pródiga em peixes e ovos de aves e répteis como a tartaruga, daí mostrarem-se incrédulos). O imperador dos céus, sensibilizado com os esforços do homem para sobreviver, enviou um boi a terra para conversar com o homem e tentar resolver o problema. Mas o boi confundiu a mensagem dizendo que o imperador dos céus tinha decretado que o homem poderia comer três vezes por dia. Tal engano agravou a situação, pois se antes, quando os homens ficavam até três dias da semana sem comer, já faltavam alimentos, imagine-se agora que poderiam comer até três vezes por dia, e todos os dias! E Tião dizia, para riso geral: ‘Comer muito não é valentia, comer pouco mas todo dia’. Então o boi foi mandado de volta a terra, mas desta vez para ficar e ajudar o homem a plantar e produzir o necessário para sua alimentação. E Tião profetizava o fim dos búfalos rosilhos, que se insurgiram contra o imperador dos céus, pois não se prestaram à cangalha; seriam perseguidos e sacrificados pelos homens, que receberam o boi como mero objeto de trabalho, sem o digno respeito, e por isso também seriam um dia punidos. Se Tião repetisse muito essas estórias, logo o teriam por louco, principalmente porque dizia que esse boi que veio do império celeste era chamado na China, onde fora lançado, de ater-ox, quer dizer búfalo do pântano ou Shui niu. Isso era ainda mais absurdo, pois no Marajó todo vaqueiro sabia distinguir o búfalo do pântano, os rosilhos, do búfalo de rio, os pretos.”
 
“Mas a estória de Tião tinha fundamento. Meu pai, quando contou a genealogia da minha família, começou dizendo dos 50 búfalos que chegaram da China, e que só depois, muito depois, chegaram os pretos. O imperador dos céus, dizia Tião, mandara os pretos para serem bestas de carga do homem, uma vez que os rosilhos a isso se recusaram.”
 
“Quando Tião começou a narrar os últimos momentos da vida do meu búfalo rosilho bangoleiro, também suspeitei que meu amigo desvairasse, em fase adiantada de demência, vagando entre as estórias fantásticas de vaqueiro e a realidade. Mas ele contava com tantos detalhes — o que, aliás, entre os vaqueiros, acostumados a homéricos devaneios, não é prova lídima da verdade, mas de simples verossimilhança — que eu, recusando-me a crer, cria. Cria porque já sabia, embora a dor e a revolta tenham me levado no outro dia a Santa Inês, para ver com os olhos o que os ouvidos já bem ouviram. Agora, para encolher o espichado, conto eu o que me contou Tião — os últimos instantes do meu búfalo rosilho.”
 
“O doutor veterinário, dotô-garça, imagino, para assombro da vaqueirama, contou, com diferenças de somenos, a estória do deus Byres, com chifres, boca e orelhas de búfalo, que defendia o Rei de Chou, na China. ‘Queria que Nhozinho visse a boca aberta da vaqueirama. Diz-que o imperador dos céus, penalizado com o sofrimento dos homens, que passavam fome, mandou o búfalo do pântano, os rosilhos (!), os primeiros animais domesticados pelo homem, para ajudá-lo na agricultura, mas o imperador teve de mandar outro boi, o do rio, o preto, para ajudar os homens, vez-que os rosilhos se rebelaram contra o imperador dos céus e contra os homens, recusando o arado e a cangalha, extraviando-se pelos pântanos como feras. Os rosilhos deviam ser mortos, concluiu o dotô-garça. Imagine o Nhozinho a cara da vaqueirama, admirada, me olhando, pois riram de mim quando dizia que os rosilhos um dia seriam sacrificados pelos homens. Mas agora era o dotô que falava!’. O doutor veterinário continuou, ladeado pelos fazendeiros, inclusive meu pai, do alto do jirau de tábuas, ou melhor, do palanque: ‘O governo brasileiro, representante do imperador dos céus, decretou o dia 5 de outubro, que a Santa Madre Igreja escolheu como o dia de São Benedito, para o dia do búfalo — dos pretos, bem verdade, e não dos rosilhos, que se bandearam pro lado do capeta e receberão por isso o seu castigo. Doravante ninguém mais chame os búfalos de búfalos, mas de gado São Benedito; que todos os rosilhos sejam levados ao matadouro, e morram primeiro os touros reprodutores, para não continuarem a propagar a inimizade, a revolta e a subversão entre os animais domésticos’.”
“E foi aí, Nhozinho, que começou o fim do rosilho bangoleiro — falou-me Tião, com os olhos vidrados de viva emoção, com um quê de loucura, que me ressuscitou a esperança de que tudo fosse o cúmulo da mais desbragada fantasia de um vaqueiro atormentado pela solidão e pela tormenta infernal que se abatera sobre a ilha. Mas não, quase louco estava eu, não querendo crer no que cria. Os vaqueiros perdem, com a decrepitude, a visão e as laçadas, mas nunca a memória e a razão. Tião chegara a esse ponto, as suas fantasias, que antes provocavam risos, agora eram reverenciadas como depurada sabedoria. Ao prever o fim dos búfalos rosilhos, angariou o respeito digno dos profetas. ‘Tragam o rosilho mais famoso, o que criou mais casos, o que mais pulou cercas, o que mais emprenhou as búfalas pretas, o que nunca se deu ao costeio, o que não entrou num curral ou numa maromba, o rosilho mais selvagem da ilha; tragam o bicho pro terreiro, pertença a quem pertencer, o governo indeniza o proprietário’ — determinou o dotô-garça’. Ah, Nhozinho, eu senti um arrepio; pensei logo no teu búfalo rosilho; quem mais podia ser escolhido? Era o mais famoso, e fizera tudo o que o dotô dissera, e muito mais, e até se salvou da enchente, sozinho, sem ajuda de nenhum vaqueiro. E trouxeram o búfalo rosilho bangoleiro arrastado pro meio do terreiro, frente ao palanque. Foi preciso cem homens pro serviço. Menos o Tião, que se recusou a participar da caçada, desobedecendo pela primeira vez a uma ordem do patrão. Mas meu pai, embora contrariado, não o castigou, quem sabe em respeito a mim, pois sabia que Tião se recusava não por ele, que tudo previra, e aceitava os vexames da vida como fatalidades.”
 
“Embora peiado por cem cordas, acochado, completamente imobilizado, o bangoleiro não se rendia. Os dois olhos negros, arredondados, depois de tanta luta, estavam ainda mais projetados, e injetados de ódio; reviraram-se enormes, de baixo para cima, insultando a roda dos vaqueiros que, sem dó nem compreensão do que se passava, divertiam-se com o sofrimento do pobre animal. ‘Pra mim, a festa acabou ali, Nhozinho. Xinguei muitos cabras, pela covardia que tavam fazendo; por que não soltavam o bangoleiro e cada valentão não enfrentava o animal sozinho? Uns frouxos, e bestas, dominados por um sujeito que nunca pisou na lama, com mão de moça prendada, com roupinha branca e a vozinha de periquito! Não eram valentes, brabos que nem búfalos, capazes de matar outro homem por ciúme ou bebedeira? Trouxas é que eram, os valentões! Pois, Nhozinho, como não viam que, des-que o vaqueiro nasce, às vezes no mesmo lugar, da mesma maneira que os búfalos, é com eles que se valem, e ainda mais com os rosilhos, que, se fogem, é que não gostam de dar trabalho? Pois eu lhe digo, Nhozinho, observando os rosilhos, descobri que os selvagens são é tímidos e carentes. Quando o imperador do céu mandou o bicho para ajudar os homens, eles devem ter maltratado o bicho, humilhado demais o coitado, daí ficou assim, arredio, brabo, mas é só deixar ele livre, solto no pântano, que ele não foge, pois quem é livre foge do quê? Mas o bicho-homem tem a mania de dominar, né, Nhozinho? Mas depois que o tal dotô foi embora, quem ficou com a gente? Os búfalos! E os rosilhos sofrem junto com a gente des-que o mundo é mundo; são nossos amigos mais antigos; invés de castigo, merecem respeito. De noite ainda fui com uma rapariga do Nhô Querêncio, mas broxei, Nhozinho; talvez a idade, talvez os olhos redondos da cabocla, e tudo o que é redondo e negro lembra os olhos do rosilho’.”
 
“Mas o pior está por vir, amada minha. Ainda insistes? Então vamos até o fim.”
 
“Só uma mente doentia, lunática, poderia conceber tamanha maldade. Em nome do imperador dos céus e do desenvolvimento da pátria, pregar o extermínio de uma espécie das mais antigas, que Deus criou para conviver com o homem e ser-lhe útil. Só um demônio depravado poderia, em nome de Deus e do progresso, torturar um animal indefeso, e tirar prazer da sevícia. Não bastou só matar — que a simples morte é corriqueira, e a vida faz falta só ao morto ou a quem dele precisa. Às vezes, é mesmo desejada, e, para alguns, nem existe. De forma que, o dotô-garça, homem estudado, entendido nos significados, concebeu não uma morte, mas um espetáculo. E que espetáculo! Fechaste os olhos, amada minha? Melhor seria não ouvisses. Pois pouco do que se vê vai além da retina, mas tudo o que se ouve fica ecoando na memória. Ainda queres ouvir o triste fim do búfalo rosilho? Então ouve.”
 
“O dotô-garça, comandando os músculos da vaqueirama, mandou traspassarem o rosilho, ainda vivo, com um varijão, como se quisessem assá-lo ao espeto, como um frango depenado é assado inteiro, o varijão enfiado pelo ânus, perfurando as vísceras, e, depois, saindo pela boca. ‘Eu pensei no Nhozinho. Ah, se Nhozinho estivesse, não teriam feito aquela perversidade com o animal. Mas o Nhozinho não estava, e quem era eu pra impedir? Já foi muito não ter ajudado. Na hora que encaixaram a ponta do varijão no cu do rosilho, antes do Zelito das Mercês dar a primeira porrada com a marreta, vi Nhô Domiciano com cara de quem ia impedir, mas ele já não podia, tinha dado o bangoleiro a Nhô Dioclécio, e um fazendeiro é homem de uma só palavra. O Zelito das Mercês mirou a ponta do varijão com perícia, como se mirasse o xiri duma rapariga, e deu a primeira marretada, potente e enraivecida. Um vaqueiro trocista gritou: Bate, Zelito! É o cu do Cirilo da Assunção! O Zelito das Mercês criava um filho dele que era a cara do Cirilo da Assunção. Com a primeira pancada, o bangoleiro deu um urro rouco, longo e agoniado. Mas não se abateu, como se quisesse esconder a sua dor. Só os olhos continuavam bem abertos, escancarados. Uma coisa incrível aconteceu então, Nhozinho. Eu acompanhava o martírio do animal lá de longe, por trás da roda de homens, que gritavam se divertindo. O bangoleiro não podia me ver, mas eu via ele. Eram olhos de gente, Nhozinho! Ódio e dor. A cada martelada do Zelito das Mercês, o ódio dava lugar à dor, mas parecia que o animal não podia morrer antes de ver alguém. Mirava a roda de brutos como se procurasse alguém. Diz-que os animais não têm memória, nem recordações, pois eu digo que têm, senão por quem ele procurava? Era pelo Nhozinho, pensei. Mas o Nhozinho fazia um ano na cidade! Não podia ser, tem gente que se esquece de tudo depois de um dia! Então não agüentei, Nhozinho; corri pra roda embrutecida, rasguei caminho, levei um cotovelaço do Tonhão do Bonfim, que não queria perder visão, e quando apareci do lado de dentro da roda, a dois metros da cabeça do bangoleiro, o animal, que até aí não parava de mexer os bagos do olho, grudou os olhos em mim. A estaca já estava pela metade, sangue escorria do cu do coitado, e uma lágrima, Nhozinho, uma lágrima, grossa, vermelha, rolou pela cara do animal, que continuava me olhando, já sem ódio nem dor, só desespero e uma coisa estranha, Nhozinho, parecia saudade. Se aquele búfalo tivesse uma língua que nem a nossa, falava. Nhozinho talvez não acredite nisso, mas, tenho certeza, o bangoleiro mandou um adeus pro senhor! Uns vinte homens suspenderam o varijão e penduraram o rosilho, que morreu olhando pra mim, nas forquilhas de dois barrotes fincados no terreiro. Deixaram o animal o resto da tarde ali, exposto, para todo mundo ver. No instante que o animal expirou, outra coisa estranha aconteceu, Nhozinho. Milhares de búfalos urraram, parecendo chorar a morte do touro amado. O dotô-garça, pra completar, mandou trazerem à força alguns touros rosilhos pra verem o bangoleiro espetado num varijão que nem frango. Mas o doido não conseguiu amedrontar os bichos, que urraram enraivecidos e arribaram pro campo, quebrando cordas e arrastando vaqueiros. À noite, antes da festança de São Benedito começar, antes da dança e da mulherança, o dotô-garça, com a ajuda da vaqueirama, arriou o rosilho do terreiro, tirou o varijão e fez o serviço de empalhação. O bangoleiro tá lá na Santa Inês, frente à capela da Santa. Já tem vaqueiro achando sagrado o animal, até os que ajudaram a torturar o bicho. A Santa que se cuide, senão perde os devotos pro rosilho. Foi assim na China, já tinha dito. Vai ser também no Marajó. O homem mata, depois se arrepende e acaba santificando o morto. Falar a verdade, Nhozinho, o bangoleiro bem merece adoração; foi um animal que nem gente. Mesmo empalhado, continua com o olhar da hora da morte. Nem ódio nem dor, só saudade. Se o Nhozinho quiser, eu levo o Nhozinho na Santa Inês pra ver’.”
 
“E eu fui, pois embora não tivesse dúvida, não queria crer que a loucura fosse verdade. Mas era. Encontrei o meu bangoleiro do jeito que o Tião contou. E concluí, amada minha, que o meu obscuro amigo Tião, na sua simplicidade de vaqueiro iletrado, era mais filósofo do que o mais festejado dos filósofos, que um dia escreveu: ‘O homem pergunta um dia ao animal: — Por que não me falas da tua felicidade e não fazes mais do que me olhar? O animal bem queria responder e dizer: — Isso provém de que esqueço imediatamente o que queria dizer. — Mas já esqueceu a resposta e calou-se, o que muito espantou o homem’. Se o filósofo tivesse assistido à morte do meu búfalo bangoleiro e o seu último olhar, não blasfemaria contra Deus, afirmando que o animal não se recorda.”
 
*(Excerto do romance “A Espera do Nunca Mais”, 1999)
  
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» Álvaro Alves de Faria

Já em 1971, ano da primeira edição do romance "O Tribunal" (Editora Martins-SP), Álvaro Alves de Faria, com apenas 29 anos de idade (nasceu em São Paulo em 1942), era considerado “um dos escritores jovens mais conceituados” do Brasil, como informa o jornalista Durval Monteiro nas orelhas do livro. Da Geração 60 de Poetas de São Paulo, Álvaro Alves de Faria publicou mais de 50 livros, incluindo poesia, novelas, romances, ensaios literários, livros de entrevistas com escritores e é também autor de peças de teatro, entre elas "Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo", que recebeu o Prêmio Anchieta para Teatro, um dos mais importantes dos anos 70 do Brasil. Como poeta, recebeu os mais significativos prêmios literários do país. É traduzido para o inglês, francês, japonês, espanhol, italiano, servo-croata e húngaro.

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