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O feroz círculo do homem
Página publicada em: 05/06/2017
Fernando Py
Numa linguagem simbólica, Carlos Nejar constrói uma poderosa parábola do nosso tempo, numa época em que "a hipermodernidade devora os sons da primeira manhã". Confira a seguir a resenha que Fernando Py escreveu sobre o novo livro de Carlos Nejar. (texto publicado originalmente na "Tribuna de Petrópolis", 24, 25 e 26 de dezembro de 2015, Petrópolis,RJ)
Com O feroz círculo do homem (Taubaté: LetraSelvagem, 2015), prossegue o poeta Carlos Nejar a sua trajetória de ficcionista em prosa, iniciada com Um certo Jaques Netan (1991). Agora, somos apresentados a um universo de delírios e imagens numa prosa bastante enxuta e concentrada, na narrativa exposta pelo personagem Tibúrcio Dalmar, que é encarregado de guardar as sombras das almas no sótão de uma tenda em Pontal do Orvalho – entre o cimo de um monte e as margens do rio João Aragem, local que assume a forma de uma Caverna circular, comandada pelo Círculo. Este é uma entidade enigmática. Por vezes parece impor-se de modo discricionário, como se fossem ditadores os membros que o compõem. Outras vezes se mostra tolerante e compassivo – o conjunto das pessoas que o formam se assemelha a seres humanos comuns. Em toda a narrativa existe sempre essa ambivalência, ambiguidade que o próprio Dalmar não penetra inteiramente. E Dalmar expõe ao leitor sua própria ambiguidade. Admite que é um tanto difícil de ser entendido, mas todos são assim: “Não somos obrigados a explicar, muito menos a natureza. Ela nos explica e basta” (p. 22). E vive a sua vida, conta que as pessoas sofrem de alucinações e essas alucinações apareceriam em momentos de desânimo. E em todas as peripécias narradas por Dalmar, destaca-se o fato de ter sido designado pelo Círculo de administrador das sombras das almas. Custou a aceitá-lo porém acabou aceitando: as sombras das almas eram colocadas em caixas, depois substituídas por vasos fechados – eram apenas sombras, pois as próprias almas já haviam subido às etéreas alturas (p. 29).
 
E Dalmar se torna chefe dos arquivos dos mortos nos vasos com as sombras das almas.
 
Podemos esclarecer que alma, sombra, sonho, amor, bem como Deus e principalmente a Palavra, são reflexos simbólicos do universo criado por Nejar, universo em que a Palavra come a morte, indefinidamente. Portanto, O feroz círculo do homem – segundo Diego Mendes Sousa no posfácio ao livro – é uma parábola do nosso tempo, “onde a hipermodernidade devora os sons da primeira manhã” – ou seja, destrói as nossas concepções de mundo, o que provoca uma doença nefasta: o esvaecimento das almas viventes (p. 148).
 
Ademais, para Dalmar existe a Sabedoria e, sobretudo, o Amor. Sua sabedoria se expõe e se desenvolve no conhecimento das coisas e na citação de escritores e filósofos, o que lhe dá realce entre os seus e até dentro do Círculo. Mas é o amor de Lualva, morena “encorpada, lastreada de curvas e volúpia”, que envolve inteiramente a natureza de Dalmar e o faz entender que no amor é que “principia a nascença da alma” (p. 62). Vale a pena ler e refletir sobre o livro de Nejar.
 
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*Fernando Py é um poeta, crítico literário e tradutor brasileiro. Traduziu a íntegra da monumental obra proustiana Em Busca do Tempo Perdido

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» Adelto Gonçalves

Jornalista com passagem em alguns dos maiores órgãos da Imprensa de São Paulo, professor univeresitário com doutorado pela USP (Univesidade de São Paulo), especialista em Literatura Portuguesa e Espanhola, autor de ensaios premiados, é também excelente ficcionista, como se pode comprovar neste romance "Os vira-latas da madrugada", um dos livros premiados, em 1980, no concurso de âmbito nacional promovido pela Livraria José Olympio Editora, que o lançou em 1981, e, trinta e quatro anos depois, é reeditado pela LetraSelvagem. "Adelto Gonçalves tem o dom de fazer viver suas personagens, convencendo o leitor de seu valor humano, mesmo quando suas ações, como as de Pingola e Quirino, lhe repugnem", escreveu Maria Angélica Guimarães Lopes, professora emérita da Universidade South Carolina, em resenha publicada na "Revista Iberoamericana", do Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, Universidade de Pittsburg, EUA, janeiro de 1985.

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