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Críticas

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Baú de lembranças
Página publicada em: 27/07/2017
Fernando Py
Em busca da infância perdida, um filho acompanha seu pai ao lugar onde este teria sido feliz. Livro-metáfora. Livro-poesia. Vida que salta do "baú de lembranças" diretamente para a Literatura. Estranho olhar. Memória enlouquecida que ilumina uma "realidade" distorcida. (Leia, a seguir, a resenha de Fernando Py, publicada originalmente no jornal "A Tribuna de Petrópolis", Petrópolis, RJ, 9/6/2017)
”Baú de lembranças” é um dos apelidos que o escritor paraense Nicodemos Sena emprega para designar os textos que compõem seu livro Choro por ti, Belterra! (Taubaté, SP: LetraSelvagem, 2017).
 
Temos um conjunto de 19 episódios que formam uma única narrativa. Quando qualquer pessoa cultiva o íntimo desejo de se restituir à infância e aos tempos em que criou seu próprio mundo e, nesse caso, procura visitar de novo a terra em que nasceu e guarda na memória, pode encontrar de novo essa região em que viveu. Porém tal região sempre estará incompleta – essa pessoa encontra o local mas falta-lhe a própria infância. Isto é o que, de certo modo, acontece com o pai do autor, Bernardino Sena, 78 anos, que viaja com o filho para regressar às suas origens: Belterra, que já foi distrito de Santarém e recentemente se tornou município. Chegando lá, tem a surpresa e o desaponto de achar a região em ruínas.
 
A sua Belterra está deserta, é uma povoação desabitada e quase destruída. Encontram afinal vestígios de atividade à margem esquerda da estrada: o portal de uma fábrica de beneficiamento de madeira. E o filho comenta: “Essa fábrica provavelmente ocupa o espaço que era das seringueiras”. Mas a fábrica está desabitada, todo o material tem aspecto de abandono.
 
E assim por diante. Por onde vão passando, na demanda do centro da povoação, tudo está deserto de gente, uma ausência incrível e inexplicada, pois no tempo da infância do pai, Belterra “tinha um movimento danado”. O magnata norte-americano Henry Ford resolvera investir no Brasil em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e organizou plantações de seringueiras, de cujo leite se fez a borracha necessária para os pneus usados nos carros de guerra.
 
Por fim, pai e filho descobrem uma casinha pobre, onde moravam um casal e a filha única. Diziam que eram pobres, mas felizes. Mais adiante, outra casinha pobre, outros sitiantes, mãe e neta, que recebem os chegados com água e café, enquanto Belterra continuava deserta, parecendo uma cidade fantasma.
 
E assim, pai e filho vão percorrendo a estrada comprida e inteiramente desprovida de pessoas. Chegam ao prédio da escola onde o pai estudara: está abandonado, não há nada que indique vida. Na estrada, de lado a lado, somente casas brancas totalmente desabitadas. Onde estaria o povo dali? O abandono e o lixo das ruas era tal que fez o filho lembrar-se de Macondo de García Marquez, em seus “Cem anos de solidão”. De quando em vez, os viajantes deparam com alguém, mas o povo em geral onde está?
 
Nesse livro-metáfora, livro-poesia, Belterra (“Bela terra”) pode ser o símbolo da infância perdida ou, segundo as reflexões do próprio Nicodemos Sena, “era certamente a cidade mais viva e povoada do mundo, não importa que eu, em minha cegueira, não enxergue as pessoas e a vida que escorrem perenes...”
 
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*Fernando Py é poeta, crítico literário e tradutor; traduziu a íntegra da monumental obra Em busca do tempo perdido  

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Autores Selvagens

Autor

» Álvaro Alves de Faria

Já em 1971, ano da primeira edição do romance "O Tribunal" (Editora Martins-SP), Álvaro Alves de Faria, com apenas 29 anos de idade (nasceu em São Paulo em 1942), era considerado “um dos escritores jovens mais conceituados” do Brasil, como informa o jornalista Durval Monteiro nas orelhas do livro. Da Geração 60 de Poetas de São Paulo, Álvaro Alves de Faria publicou mais de 50 livros, incluindo poesia, novelas, romances, ensaios literários, livros de entrevistas com escritores e é também autor de peças de teatro, entre elas "Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo", que recebeu o Prêmio Anchieta para Teatro, um dos mais importantes dos anos 70 do Brasil. Como poeta, recebeu os mais significativos prêmios literários do país. É traduzido para o inglês, francês, japonês, espanhol, italiano, servo-croata e húngaro.

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