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Paraense faz boa ficção com 'anos de chumbo' e choques entre culturas
Página publicada em: 14/06/2008
Olga Savary*
Ao estrear com saga de fôlego, Nicodemos Sena dá uma lição de leteratura e de brasilidade (Publicado no jornal O GLOBO, caderno Prosa & Verso, 3/3/2001, Rio de Janeiro)
Livros há que penalizam árvores, esses generosos seres da natureza que, além de tudo o que doam ao planeta Terra (o equilíbrio ecológico, sombra e tudo o mais), dão a celulose necessária à fabricação do papel para os livros dos escritores. Quando vejo um mau livro, o primeiro pensamento que me vem é este: coitadas das árvores! Este desperdício imperdoável remete à idéia de que a escritura nasce bem antes de ser escrita. Arte é "coisa mental", já afirmava Leonardo da Vinci. Poesia, por exemplo: deveríamos viver em estado de poesia, o que certamente nos faria mais felizes.

 

É uma alegria quando nos deparamos com um livro como A espera do nunca mais (Editora Cejup, 876 páginas), esta extraordinária saga amazônica, narrada com sedução, seriedade, poesia. Forma e estilo são impecáveis nessa estréia, que nem estréia parece, de tão madura. Todo o livro, o primeiro do paraense de Santarém Nicodemos Sena, em suas 880 páginas, é uma exaltação à palavra, lavra que o autor utiliza como veículo para contar inúmeras histórias entrecruzadas dos seres amazônidas, habitantes genuínos dessa esplendorosa floresta, ícone nacional. Quando pensamos em Brasil, três palavras traduzem o espírito do nosso país: Amazônia, futebol e carnaval.

 

Da primeira, a Amazônia, trata A espera do nunca mais. Menino criado na beira do rio, habituado às caçadas nas brenhas da mata e aventuras, Nicodemos desde cedo se embrenhou também na viagem maior que é a literatura. Leu os bons autores, principalmente os brasileiros, e entre eles os grandes paraenses, de quem se confessa devedor, como Inglês de Souza, Ferreira de Castro – que não era da região, mas escreveu sobre ela, assim como o poeta Raul Bopp, gaúcho de alma amazônica, com seu magistral Cobra Norato – Dalcídio Jurandir e Benedicto Monteiro.

 

Machado de Assis e Márcio Souza também estiveram entre suas leituras precoces, entre tantos mais. Aos 13 anos escreveu uma aventura longa, sua primeira incursão literária, depois destruída, a que intitulou O inferno verde. O menino que se deslumbrava com os mestres da literatura brasileira, hoje, com estas alentadas páginas de "A espera", está sendo comparado pela crítica a Graciliano Ramos e João Ubaldo Ribeiro, dois autores de sua especial preferência. É inegável, pelo menos, o parentesco. Para Nicodemos Sena, literatura é opção de vida e tem função social, devendo contribuir para tornar o homem melhor e o mundo mais suportável, com as pessoas mais tolerantes.

 

Nascido em 1958, o santareno Nicodemos Sena foi em 1977 para São Paulo estudar, tendo se bacharelado em jornalismo pela PUC e em direito pela USP. Residiu anos em São José dos Campos, para onde deverá retornar agora em 2001, após ter cumprido em 2000 a tarefa de diretor de redação do jornal "A Província do Pará". Após lançar A espera do nunca mais em Belém, Santarém e São Paulo, e ter recebido o Prêmio Lima Barreto-Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores, no Rio, Nicodemos já prepara o segundo romance.

 

Rigoroso com a sua própria criação, o autor não pretendeu escrever um romance "ecológico" ou "histórico", coisa que para ele seria mais fácil mas perigoso, podendo cair numa vertente piegas. Preferiu o caminho mais árduo da saga amazônica, cujo cerne situa-se na década de 50 em diante até os derradeiros "anos de chumbo" da malfadada ditadura militar, quando o capital internacional se instalou na Amazônia. Interessa-o flagrar o choque cultural entre as duas culturas, a do branco e a do índio, de como os valores de uma sociedade industrial tentam engolir, qual uma cobra-grande engole na narrativa um pequeno sapo, a sociedade autóctone e arcaica do caboclo desta região majestosa e vilipendiada.

 

De muita pesquisa, imaginação e criatividade resultou esta obra monumental, iniciada há cerca de dez anos, quando Nicodemos se questionou sobre que forma usar: naturalista? fantasiosa? realista? Decidiu-se por uma harmoniosa dosagem de todas estas vertentes, e mais muita poesia e humanismo, que sem estas duas últimas nada de criação vale a pena. Bebe o autor na fonte de mistério das muitas águas amazônicas, porém escapando do regionalismo limitador. Não esquecendo, no entanto, o que dizia Leon Tolstoi: pinta tua aldeia e pintarás o mundo. E que o leitor não se engane: como nas lendas indígenas, a trama é linear apenas na aparência, uma vez que a sinuosidade dos rios e igarapés é volúpia pura.

 

Um ano levou ele lendo e pesquisando, mais quatro anos só escrevendo, e depois um ano e meio lapidando o texto. Ou seja: quase sete anos de paixão pelo trabalho. Um trabalho extenuante? Com certeza, porém o autor se deparou com uma monumentalidade a que já não podia recuar, semelhante à cobra-grande querendo engolir o seu criador, no caso, imaginador. "A espera", na verdade, contém três romances dentro de si, até porque, como diz o autor, os problemas da região se avolumam. O livro não poderia senão refletir e representar a magnificência da Amazônia, tanto na sedução de suas lendas, quanto na de seus problemas. A espera do nunca mais, de Nicodemos Sena, é uma lição de literatura e de brasilidade.

 

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*OLGA SAVARY é poeta e escritora, autora, entre outros, de “Repertório Selvagem” (Fundação Biblioteca Nacional, RJ)


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