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Entrevista - Marcelo Ariel
Página publicada em: 05/07/2008
Nicodemos Sena*
A poesia fora de seu lugar oficial

No "Big Brother" (sem público) em que se converteu a literatura brasileira, a palavra chegou a tal ponto de esvaziamento e afastou-se tanto de sua origem sagrada, que hoje é quase impossível distinguir o que é verdadeiro e o que é falso, o que é autêntico e o que é simulacro, o que é valor e o que é marketing. Neste contexto, Tratado dos Anjos Afogados (Edições LetraSelvagem, 2008, 220 pág.) complica ainda mais a questão. Pois se trata de um livro híbrido, caldeamento de estilos, "miscigenado", por assim dizer; uma mesclagem de tudo o que já se fez: "literatura oral", literatura escrita, filosófica, mística, social, metafísica, existencial...? Prosa ou Poesia? Ao que parece tomada pelo mesmo espanto, Mariana Ianelli escreveu no prefácio: "Um raio explode no coração do mundo, como em uma das telas incendiárias de William Turner". Ainda perplexo, entrevistei Marcelo Ariel, na esperança de que, ao dar a conhecer a vida que Ariel tem levado entre caranguejos e marginais dos "alagados" de Cubatão, se possa enfim iniciar a compreender o pensamento e a maneira como se expressam milhões de pessoas que, embora tão reais e comuns, tornaram-se absurdamente invisíveis: os "Anjos Afogados" do Brasil.                     

 
NS – Lendo os poemas que escreveste ao longo de 30 anos, e que só agora, quando completas 40 anos de idade, serão enfim publicados, percebe-se o que se pode chamar de uma “estética andarilha”, que se desloca com versatilidade por espaços e temas vários. Pode-se imputar alguma influência da tua origem cigana nessa estética?

MARCELO ARIEL – Talvez não, porque essa origem cigana se perdeu no tempo, é algo que faz parte da formação do meu inconsciente, das estruturas obscuras da minha interioridade. O Jung, um autor muito importante para minha formação, escreveu em sua autobiografia que nós somos apenas a história de um inconsciente que se realiza e os aspectos ciganos da minha trajetória e da minha atualidade, lembrando que vivo há mais de vinte anos da venda itinerante de livros usados, subindo e descendo a avenida principal de Cubatão e cidades vizinhas, praticamente todos os dias, me liga a esse passado totalmente enevoado... Na verdade meus antepassados da parte da minha mãe vieram do Egito e se estabeleceram em Portugal e depois no Brasil, isso é uma intuição objetiva que tenho, pois não há nenhum registro dos excluídos que fundaram esse país. A parte cigana é a mais remota e está ligada ao meu pai, que eu julgava morto e, depois de trinta e quatro anos, reapareceu recentemente.
Eu mimetizei as memórias enevoadas dos meus antepassados através do meu estilo de vida despojado e estóico e isto está no centro de tudo o que escrevo, porque não escrevo para fugir de mim mesmo, mas para realizar a fusão impossível entre os meus mortos e os vivos através da poesia. De algum modo a poesia é a imaginária recuperação de um rosto primordial irremediavelmente perdido, é a tentativa de despertar a outra face citada pelo Poeta Yeshua Ben Rá, que é como Cristo era conhecido no Egito Antigo.

NS – Num mundo de economia “globalizada” e produção de lixo cultural em altíssima escala, no qual não só as fronteiras políticas – mas também a do bem e do mal, do certo e do errado – caíram por terra, haverá ainda uma função para a poesia?

MARCELO ARIEL – Como disse acima, promover a recuperação do irremediavelmente perdido. A poesia é a medula de todas as primeiras grandes religiões, Novalis afirmava que ela era a religião original da humanidade na Idade do ouro; quando digo Idade do ouro, estou me referindo a um tipo de humanidade que foi desconstruída, destroçada e reduzida a uma criancinha-burra e esquizofrênica fumando maconha e tomando ecstasy no estacionamento do shopping, ou seja, de cabeça para baixo... Voltando à função da poesia... A maior talvez seja a de ser um registro do modo como deveremos nos comunicar num futuro que intuo será uma repetição dessa Idade do ouro de Novalis, algo bem longe da República de Platão, que pode facilmente ser nazificada. O lixo cultural, ao qual você se refere, é produzido para versões simbólicas dos shoppings e dos supermercados, por exemplo: As livrarias em sua maioria não passam disso, e quando muito são bons açougues metafísicos ou literários que em essência também são seções de um grande Ceagesp Cultural... A poesia, e me refiro à alta poesia, nisso, tem a mesma função, das frutas e hortaliças encontradas no lixão, no final da feira ou do mercadão da indigência cultural; sempre aparecem os catadores de poesia, e eu sou um deles. Sou do “Comando” dos catadores de poesia. Aliás, uma função nobre da alta cultura, seria a de invadir as zonas de exclusão e fundar uma espécie de PCC Cultural ou ela será apenas o que tem sido: mais um dos braços do marketing da mistificação. Mas quando falo em ‘Alta cultura’ estou sendo novamente um otimístico.

NS – Vislumbra-se na tua poesia como que um rosto, ou melhor, muitos rostos, que tentam romper o obscuro, num ambiente asfixiante, sórdido e pervertido; também se ouvem vozes, não das sereias de Ulisses, mas de seres repulsivos, que nos convidam para dentro de um sonho, ou de um pesadelo, ou da loucura. O que espera o poeta dentro de um mundo assim refletido?

MARCELO ARIEL – Como Anne Sexton, uma grande poeta suicida norte-americana, ou melhor, uma grande poeta suicidada pelo estilo de vida americano, eu também faço da poesia uma espécie de ‘exorcismo-às-avessas’: ao invés de expulsar os meus demônios, tento invocá-los e chamo todos pro pau, quando apanho é o rosto e a voz deles que um leitor sensível como você é capaz de vislumbrar; quando ganho a luta, o poema é escrito. O que espero dentro desse mundo, que afinal, é a minha sombra abissal? Vencer os demônios. Literalmente isso.

NS – Quais os possíveis significados da palavra “suicídio” que aparece com certa freqüência em teus poemas?

MARCELO ARIEL – Nos meus poemas essa palavra é uma metáfora para o modo como a vida está organizada dentro de uma sociedade de consumo como a nossa, que ainda não possui uma estrutura e organização societal voltadas para a civilização e para a educação estética e ética da pessoa humana, que valorize o tempo de viver. Sou autodidata, passei a infância e a adolescência freqüentando bibliotecas públicas, tive acesso apenas ao básico das culturas greco-romana e oriental na forma das traduções para o português dos livros mais conhecidos destas três civilizações, mas o pouco que li foi suficiente para que eu fosse capaz de compreender esse óbvio, que somos constantemente suicidados. Infelizmente, alguns, ao perceberem isso, transformam uma metáfora da destruição em um fato consumado para si mesmos; meu irmão mais velho, por exemplo, cometeu suicídio. Por isso, há também a possibilidade dessa palavra nos poemas estar representando a figura desse meu irmão, de modo simbólico, mas o propósito mais elevado do uso dessa palavra é evocar o poder que ela tem enquanto conceito de afirmar a vida através de sua negação, o que parece paradoxal. Creio que todos os poetas mais cedo ou mais tarde enfrentam esse demônio do paradoxo. Creio também que o não-suicídio individual ou coletivo será o maior desafio enfrentado pela humanidade nos próximos séculos. Como sou um realista esperançoso, espero que ela vença o desafio. Você já notou que a maioria dos heróis da mitologia grega, quando parte para sua jornada, é chamada de suicida. Teseu antes de entrar no labirinto, Ulisses antes de partir em direção à Ítaca, Perseu antes de enfrentar as Harpias... Isto nas versões que li, que eram adaptações para crianças. Mas o que realmente estou querendo dizer com isso?

NS – Isso remete à idéia de missão civilizadora do herói. O que pode fazer o poeta em face do “minotauro” neoliberal que devora a carne de milhares de brasileiros lançados na miséria e engole a nossa energia criadora? O poeta tem uma missão civilizadora?

MARCELO ARIEL – Sim, a poesia como um elemento da alta cultura, pode ter essa característica, mas não podemos nos esquecer da lição dos membros do partido nacional socialista da Alemanha , que conheciam e apreciavam profundamente o Fausto, A Bíblia, Bach, Holderlin, Wagner, Lessing... enfim, a mais alta cultura e isto não os impediu de planejar e botar para funcionar os campos de concentração onde se praticou o assassinato em massa com métodos e planejamento industriais. Talvez a missão do poeta seja a de ser ‘um vírus no sistema’, seja ele neoliberal, nazifascista e etc. O poeta é, para qualquer tentativa de enquadrar o ser humano num sistema, uma peça-fora-do-lugar e algo perigos; os poetas e escritores hoje são inofensivos e há uma profusão de ‘poetas oficiais’ e ‘clubes oficiais de poesia’, saraus e vários tipos de grupos de terapia poéticos com suas antologias e chás de cozinha filosóficos com poetas em boutiques de livros e etc.; considero esse dado mais sinistro do que a pasmaceira geral que corrói a alma do nosso povo; há uma nítida apartação entre os poetas e a realidade suja do ‘em torno’, que é no máximo citada como cenário dos poemas e não como centro de onde eles se irradiam, que é o que tento fazer nos meus, apesar da guinada maldita para a névoa metafísica. Quanto à nossa energia criadora, ela permanece intacta porque provêm de fontes orais; o João Guimarães Rosa percebeu isso; a relação entre as nossas fontes orais e a dos antigos filósofos, as nossas raízes mais profundas são as que nos ligam às origens da própria civilização, Roma e Grécia, através da matriz lingüística; há um Brasil urbano que podemos chamar de megafavelizado distante das tradições orais e da ética cavalheiresca do sertanejo, que é tão rigorosa e civilizadora quanto à dos filósofos estóicos... Como você vê, o “Minotauro” neoliberal pode a qualquer momento ser cercado por neo-jagunços do narcotráfico ou anulado pelo próprio movimento de sobe e desce das engrenagens obscuras da economia mundial. A miséria continuará sendo tratada como ‘um patrimônio’ e dando lucro, e o poeta não terá nada a ver com isto a não ser que se torne um terrorista, um homem-bomba. O que, como sabemos, não muda as coisas. Acho que divaguei muito, espero ter respondido sua pergunta.

NS – O que já acontecera com a crítica, que se deslocou dos rodapés dos jornais para as insossas teses acadêmicas, também vem acontecendo com a produção literária, para a qual, não de forma oficializada, mas efetiva, exige-se dos autores que apresentem títulos universitários ou estejam em vias de poder apresentá-los, fechando-se as portas aos autodidatas. O que pensas sobre isso?

MARCELO ARIEL – Considero as universidades culpadas por boa parte da indigência cultural reinante no Brasil. Qual é a função social das universidades?
Elas não deveriam ser todas abertas, gratuitas e sem muros?
Que planejamento para o país foi pensado e proposto criticamente pelas universidades nos últimos dez anos? É óbvio que os melhores quadros técnico-científicos estão lá, então por que eles não influenciam em nada a cultura política dos poderosos, que continuam a praticar a mesmíssima política da época do descobrimento com algumas variações para-americano-ver e uma ou outra exceção personal, uma ou outra grande personalidade se destaca aqui ou ali, é a lógica do futebol aplicada à política e vice-versa. Nas universidades idem, os reitores são prefeitozinhos tão alienados da nossa realidade concreta quanto os juízes do Supremo, os grandes industriais, os mega-empresários, banqueiros e etc. Os autodidatas estão dentro da lógica de exceção, um Villa Lobos, um Machado de Assis e assim por diante são acidentes como um Mozart, um Van Gogh e etc. Agora, se as faculdades abrirem as porteiras de graça para todos, as possibilidades de aprimoramento aumentam, seria a democratização do conhecimento, mas para isso teriam de derrubar os muros e o cargo de reitor deveria deixar de ser um cargo ligado indiretamente e às vezes até diretamente à política partidária. Além disso, elas são mal planejadas, as privadas parecem shopping-centers e as públicas, sem comentários...
Veja só a USP, que foi construída bem longe dos centros urbanos, praticamente no meio do mato, é óbvio que o resultado de tanta apartação e distanciamento é a alienação e a nulidade política de gerações de alunos. Os autodidatas são um milagre que se ingressassem nas universidades como elas estão hoje seriam anulados pela burocracia. Quanto às teses, quando não são uma simples clonagem do pensamento do professor-orientador-manipulador, ficam condenadas ao limbo dos arquivos e não são nem publicadas. E as realmente originais e dignas de nota, quem as lê fora de um círculo restrito de eleitos e pesquisadores? Resposta: Talvez os autodidatas. Acho que seria mais benéfico para todos se o ensino fundamental, o médio e o superior aqui fossem interligados, gratuitos e com o mesmo padrão de qualidade dos Estados Unidos e da Europa. A Crítica Literária? Bom, não há nenhum Carpeaux, nenhum Anatol Rosenfeld, nenhum Evaldo Coutinho em atividade e se houver está há anos-luz de qualquer redação de jornal ou revista, talvez escreva em alguma revista eletrônica. Aprendi muito lendo os suplementos literários de “O Estado de São Paulo”, Caderno de Sábado do “Jornal da Tarde” e o Folhetim da “Folha de São Paulo”, que circularam nos anos 80 e foram extintos. Cheguei a ler bons ensaios nestes suplementos. Hoje o que se pratica é o compadrismo literário. No Brasil nos últimos dez anos não apareceu ninguém com a coragem e rigor intelectual de um Edward Said. Recentemente tomei conhecimento dos poemas do iraquiano Badr Chaker Es-Sayyâb, os jornais e revistas brasileiros publicaram mais de 1000 páginas sobre o Iraque e ninguém teve a decência de chamar a atenção para a obra desse poeta, que não deve nada ao ganhador do último Nobel, o turco Ophram Pamuk. Resumindo: Não há um verdadeiro interesse em literatura, nem nos jornais, nem nas grandes editoras, nem nas empresas que ganham ‘incentivos fiscais’ realocando milhões dos impostos para peças com atores ‘globais’, filmes inócuos e artificiais que são meros cacoetes do neo-realismo italiano misturado com a estética do vídeoclip e outras picaretagens; bom, se os autodidatas são excluídos do poder de decisões na chamada cena cultural... O futuro será dos autodidatas, ao menos no crime e na política.

NS – Embalando teus versos, nota-se como que o irreverente ritmo do rap; em consonância com a sintaxe intencionalmente caótica do poema visualiza-se a áspera realidade das periferias, onde se confinam os excluídos, os estranhos (estrangeiros) dentro da própria cidade ou do país onde nasceram. Além da nítida influência simbolista, qual outra tradição influenciou o ritmo de tua poesia?

MARCELO ARIEL – Procuro dar aos meus poemas um ritmo e cadência próximos do blues, do samba ou do R.A.P., por serem formas de expressão provenientes da tradição oral, que, como disse acima, é a coluna que sustenta a alma e a identidade cultural do Brasil. Aproximar cada vez mais o poema das formas originárias da tradição da oralidade é explorar através do poema a linguagem coloquial, como um instrumento radical de transmissão de conteúdos da alta cultura.
Talvez o poema possa fazer uma ponte entre a Atenas dos filósofos gregos, o Sertão dos vaqueiros, a Caatinga dos jagunços, o Quilombo dos negros e a Floresta Sagrada dos índios e caboclos, ao incorporar signos da oralidade presentes no samba, no R.A.P. e no blues, mas isto é uma tese arriscada, posso estar enganado, por isso preciso fazer várias leituras nas zonas de exclusão que são a fusão em negativo de todas as realidades citadas acima, e debater com os moradores as questões de forma e conteúdo, de um modo simples e desmistificador. Gostaria de ser recebido nestes lugares, como os sambistas eram/são recebidos nos Morros do Rio e os cantores de blues eram/são no Mississipi. O poeta é o instrumento transmissor da alta cultura nestes meios, através da incorporação dos meios de produção da cultura oral.
Neste sentido, Love in vain de Robert Johnson e O mundo é um moinho do Cartola e Joseph Beuys são meus paradigmas, com uma diferença: onde eles falam de amor e desilusão, falo desses mesmos temas de outro modo, e os resultados, ali, cara-a-cara, serão praticamente os mesmos. O que estou propondo está há anos-luz dos saraus e demais eventos lítero-musicais. É algo selvagem, que só tem paralelos, repito, nos cantores do samba de terreiro e nos cantores do início do blues, mas será essencialmente: A POESIA FORA DE SEU LUGAR OFICIAL. Por isso, e pensando nessa abordagem mais pé-no-chão da poesia, que incorporei elementos formais das letras do R.A.P., mas enquanto os rappers falam de polícia e miséria, eu falo de polícia, miséria, violência, Baudelaire, Jorge de Lima e Espinosa.

NS – Nascendo pobre e cedo perdendo a mãe, trabalhaste como pedreiro, faxineiro, jardineiro e outros ofícios não menos pesados. Poderias falar um pouco dessa atribulada trajetória pessoal e de como, em meio às adversidades de uma vida marginal, num dos lugares mais violentos e insalubres do mundo que é Cubatão, buscaste nos livros e na cultura a superação dos problemas, enquanto milhares de jovens brasileiros, nas mesmas ou em até melhores condições, se afundam nas drogas e na delinqüência social?

MARCELO ARIEL – Cubatão é hoje uma ilha de exclusão social cercada por favelas com dez mil habitantes de um lado e indústrias bilionárias do outro, uma espécie de cenário para uma versão surreal e terceiro-mundista do filme Blade Runner de Ridley Scott. Bem, fui refém da cultura das favelas, leia-se narcotráfico, porque meus melhores amigos de infância eram traficantes e ladrões de carro e por pouco não me tornei eu mesmo um traficante. O narcotráfico é o braço mais poderoso do capitalismo globalizado, o capitalismo-periférico, ele é hoje a grande multinacional da angústia, principalmente da angústia juvenil, que se projeta como um niilismo-burro e pouco prático, um desencantamento pelo mundo e uma autonomia esfacelada que se manifesta como um sentimento de auto-destruição, vazio cultural e educacional, que alimenta o narcotráfico. Obviamente também fui um refém das indústrias, trabalhei durante anos, como faxineiro em várias, Cosipa, Rhodia e etc. Conheço os dois lados do ineficiente projeto capitalista. Como faxineiro da mão de obra industrial, que ainda é conceitualmente uma mão de obra escrava, me lembro que na Rhodia havia um enorme aquário de vidro, no refeitório, separando os chefes, ou seja, os capatazes, dos operários; e na favela, nas bocas de fumo, existe uma hierarquia desordenada e dividida em células confusas, imitação piorada da estrutura paramilitar de grupos guerrilheiros como as FARCS, que se associa ao narcotráfico. A poesia entra nesse contexto como um enfrentamento do vazio proposto por estes dois projetos de seqüestro, estupro e esquartejamento do espírito. O que encontrei no exercício da poesia foi, em poucas palavras, um sentido maior para o meu egoísmo. No fundo, o maior poeta de todos os tempos, o Qoélet, autor do Eclesiastes, estava certo: Tudo é vaidade, mas a poesia, quando é realmente vivida como uma verdade da existência do indivíduo, é capaz de dar um sentido elevado para o egoísmo e para a vaidade, um sentido que transcenda o mercado. Mas não só a poesia, a arte em geral, quando é autêntica e leva em conta a realidade exterior a partir de um centro interior, é capaz disso. Van Gogh não é um banco, Picasso não é uma marca de automóvel.

NS – Qual o conselho que darias aos jovens que almejam um dia merecer o nobre designativo de “poeta”?

MARCELO ARIEL – Que antes leiam “Cartas a um jovem poeta” do Rilke, que sabia mais das coisas do que eu, e ainda as obras completas dos norte-americanos Emily Dickinson e William Faulkner e a dos brasileiros Jorge de Lima e Lima Barreto. Penso que o realmente essencial é que os textos estejam a altura da grande tradição de escritores que realmente tinham algo a dizer, mas para sabermos disso precisaríamos de uma crítica menos míope e canalha e de leitores menos analfabetos. O surgimento de uma nova geração de grandes críticos e de grandes leitores é mais importante do que o aparecimento de um grande poeta. Temos com certeza grandes poetas anônimos, inclusive dentro da cultura oral, mas teríamos críticos capazes de ressonância e do reconhecimento deles? O desânimo e o desgosto se tornam venenos para os chamados novos escritores. Essa será uma questão a ser resolvida por eles, que terão de se tornar artistas e críticos ao mesmo tempo, como o foram Eliot, Wilde e Auden, por exemplo mas isto obviamente dentro do nosso contexto de nação em desenvolvimento, será algo totalmente diferente.
_______________
*NICODEMOS SENA, romancista paraense radicado em Taubaté (SP), autor de A espera do nunca mais - Uma saga amazônica (Ed.Cejup, 876 pág, 2ª ed. 2002, Prêmio Lima Barreto-Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores-UBE/RJ)

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» Álvaro Alves de Faria

Já em 1971, ano da primeira edição do romance "O Tribunal" (Editora Martins-SP), Álvaro Alves de Faria, com apenas 29 anos de idade (nasceu em São Paulo em 1942), era considerado “um dos escritores jovens mais conceituados” do Brasil, como informa o jornalista Durval Monteiro nas orelhas do livro. Da Geração 60 de Poetas de São Paulo, Álvaro Alves de Faria publicou mais de 50 livros, incluindo poesia, novelas, romances, ensaios literários, livros de entrevistas com escritores e é também autor de peças de teatro, entre elas "Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo", que recebeu o Prêmio Anchieta para Teatro, um dos mais importantes dos anos 70 do Brasil. Como poeta, recebeu os mais significativos prêmios literários do país. É traduzido para o inglês, francês, japonês, espanhol, italiano, servo-croata e húngaro.

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