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Um poeta que pensa
Página publicada em: 12/08/2008
Nelson Hoffmann*
Busca formal e questionamento humano na poesia de Aricy Curvello
 
A definição, um poeta que pensa, é de Francisco Miguel de Moura. O definido é Aricy Curvello.
Quem é Aricy Curvello?

Há pouco, em setembro último, foi ele galardoado e diplomado “Personalidade Cultural da UBE/RJ”. A cerimônia aconteceu no Centro Cultural da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. O fato, como sói acontecer com o que atina às artes, passou desapercebido da imprensa e raros, do grande público, poderiam dizer quem é Aricy Curvello. Isto, aliás, já é do seu feitio, um tanto avesso à badalação.
 
Aricy Curvello é poeta e dos grandes. Mora no município de Serra, Espírito Santo, onde, na praia de Jacaraípe, leva uma vida de quase anacoreta, no dizer de Erorci Santana. Como especialista em contratos, atua no Departamento Jurídico da Aracruz Celulose S/A. O curso de Direito foi por ele realizado em Belo Horizonte, na Universidade Federal de Minas Gerais. Envolvendo-se em política estudantil, foi perseguido e preso, após o golpe de 1964. Peregrinou o país, trabalhou em lugares os mais recônditos, atuou em projetos de importância nacional.
 
Nascido em 1945, é mineiro de Uberlândia, e é Aricy Curvello d’Ávila Filho, de nome completo e família tradicional. Desde pequeno faz poesia. Hoje, é dos nossos poetas maiores. Três são seus livros e todos, destaque: Os Dias Selvagens Te Ensinam (1979), Vida Fu(n)dida (1982) e Mais Que Os Nomes Do Nada (1996). O primeiro, livro de estréia, já denuncia a forte procura de uma trajetória própria do poeta; o segundo, cresce em rigor formal e acresce em conteúdo humano. O terceiro, é obra da maturidade plena do autor.
 
A poesia de Aricy Curvello chama a atenção por sua extremada (desesperada?) perquirição por caminhos novos. Mais Que Os Nomes do Nada é a sua realização de um modo quase completo. Os textos abrem-se em novos experimentos, a temática universaliza-se e o verbo é só essência. Sem dúvida, a perfeição é a grande angústia do poeta.
 
Mais Que Os Nomes Do Nada é um livro de busca formal e de questionamento humano. Quanto à forma, dois detalhes são muito expressivos:
a) - o texto aproxima-se do Concretismo, utilizando plasticamente a disposição de letras e palavras sobre o fundo branco do papel; e
b) – o desdobramento do texto leva à emissão de conceitos, à enunciação de máximas.
No primeiro caso, são belas realizações poéticas textos como “Que Não Transborde”, “Ulisses no Mar de Nomes”, entre outros; no segundo, temos como exemplos:
 
existir é o próprio caminho.
 
(A criação do que existe é uma tarefa infinita.)
 
ser é uma invenção constante.
 
O ser humano é o tema de Aricy Curvello. O homem contingente, transitório, finito; o homem político-social, o homem só, o homem ninguém:
 
salve, ó braço mecânico,
 
e homens calados
 
mas o Brasil é muito longe dos operários.
 
O homem que é (é?), o homem que não é – “O Ser e o Nada”, Sartre?
Tem-se, de modo mais acentuado, que a poesia de Aricy Curvello se aproxima do eterno retorno, de Nietsche. E isto fica muito patente desde a abertura do livro, em seu primeiro verso:
 
começar outro recomeçar.
 
Não é só, porém. Ao final, fechando o livro, temos:

viver o instante é tudo o
que posso
viver o instante é tudo o
que passa.

Esta é a condição humana. De permeio, por todo o livro, perpassa essa vivida e sofrida existência. O começo e o fim são pontas que se ligam, são partida e chegada ao mesmo tempo. É a situação do homem que está aí, a sua existência e circunstância. É o dasein, o “estar-aí”, de Heidegger. A transitoriedade, a finitude, o apenas “estar-aí” da vida. O “sim” do/para o “não”. Iguais. Tudo/Nada.
Ou, não é essa a vida nossa de cada dia?
 
Pode-se concordar, discordar, tergiversar, contestar, fugir, negar. Enfrentar. Arrazoar, contra-arrazoar. Questionar. Mas, uma vez lido o Mais Que Os Nomes Do Nada, não se pode deixar de reconhecer a força da assertiva de Francisco Miguel de Moura: Um poeta que pensa. Isto é, Aricy Curvello.
 
Eu digo mais – e muita coisa mais pode-se dizer. Aricy Curvello é um poeta que verruma fundo no espírito da gente. O seu texto tem a consciência do real. Ou seja, da verdadeira realidade, daquela realidade que está além das palavras. Afinal,
 
palavras só decifram palavras. 
 
Aricy Cuvello é poeta que pensa. E que faz pensar. E, como faz!…
 
                                                                          Roque Gonzales,RS, novembro/2000.
 
_________________
*NELSON HOFFMANN é professor, escritor e crítico do Rio Grande do Sul traduzido para várias línguas; autor, entre outros, de Eu vivo só ternuras (novela) e O homem e o bar (romance)

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» Hernâni Donato

Hernâni Donato já foi chamado de "o homem dos sete instrumentos". Isto porque, aos 89 anos de idade, membro da Academia Paulista de Letras, é autor de mais de 70 livros, nos mais variados campos da atividade humana, indo da literatura infanto-juvenil à biografia, da historiografia aos costumes, da pesquisa à divulgação científica. Entre as numerosas traduções que realizou, destaca-se a da "Divina Comédia", de Dante Alighieri, em prosa e para divulgação entre o povo. Mas foi no romance que se deu a perfeita combinação do observador minucioso, na linha do cientista social, com o escritor de estilo claro e elegante. É o autor de "Selva Trágica", "Chão Bruto", "Rio do Tempo", "O Caçador de Esmeraldas" e "Filhos do Destino", sucessos editoriais nas décadas de 1950 e 60. Alguns críticos, como Abdias Lima (“Correio do Ceará”, 2/2/1977, Fortaleza, CE), aproximaram Hernâni Donato de Erskine Caldwell e John Steinbeck, a geração norte-americana da revolta, o Caldwell de "Chão Trágico" e o Steinbeck de "As Vinhas da Ira".

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