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À sombra do cipreste
Página publicada em: 07/07/2009
Nelson Hoffmann*
Os ciprestes imaginários de Nelson Hoffmann (foto) e Menalton Braff

 
 
No ano passado, lá por julho-agosto, um dia apareceu-me, aqui em casa, o João Griebeler, querendo discutir e planejar futuras melhorias no jornal “Igaçaba”. Dentre as ideias que trazia, uma dizia-me respeito:
 
– Que tal, colocar um título genérico e fixo para seu texto da página 7?
 
Fitei-o:
 
– É fácil – eu disse. – Já tenho.
– Tem, o quê?
– O título.
– …?
 
Pisquei um olho, sorri:
 
– À Sombra do Cipreste.
 
Ele desviou os olhos para a janela, considerou um pouco, anuiu:
 
– É. Tem fundamento.
 
Pela janela, observara o cipreste que estava ali, ao canto da casa. E ele sabia  da minha paixão por ciprestes.
 
Não sei donde me vem esta. Desconfio que de velhas leituras do velho Herculano. Tem ele, parece-me, poemas que  versam  ciprestes em cemitérios.  Esguios, silenciosos, solitários. Merencórios, no dizer do poeta, talvez.
 
Quando construí esta minha casa, há mais de trinta anos, já tinha o cipreste em mente. Tão logo inaugurada, o cipreste surgiu e vingou. Hoje aí está, símbolo. Tanto que, ao prefaciar o livro de Pedro Marques dos Santos, Município de Roque Gonzales – Terra e Sangue das Missões, registrei: Um dia contei-lhe, Pedro, a gente tem que ser como um cipreste, “aquele cipreste lá de casa”, que não deita galhos. Só cresce buscando o infinito.
 
Vivo à sombra do cipreste, tenho o gosto da solidão. E a angústia do transitório. Nada mais natural que o título. Só que…
 
– A coisa complicou, Nelson – surgiu-me o João, dias depois. – Olha aqui.
 
E mostrou-me uma revista. Nela, um artigo e uma bela capa de livro, com detalhe do quadro de van Gogh, “Os Ciprestes”. O título do livro: À Sombra do Cipreste.
 
– Diacho! – pensei. – E agora?
 
O autor, Menalton Braff, eu não conhecia. Consegui o endereço e contatei. Dias depois, recebi o livro. Contos. Apresentação de Moacyr Scliar que, entre outras coisas sobre o autor, dizia coisas assim: Não tenham dúvida os leitores: estamos diante de um notável contista. Provam-no as histórias deste À Sombra do Cipreste. O que temos aqui é o conto em sua melhor expressão.
 
O conto-título é o primeiro conto do livro, de um total de dezoito. O cipreste perpassa o conto, em símbolo de infinitude e solidão: Quando me dei conta, por fim, de minha existência sobre a Terra, (…), já encontrei o cipreste erguido para as nuvens, tão fechado em seu cone escuro, tão abotoado e só, que não tive escolha e me tornei sua amiga. A história é um solilóquio de uma velha “vovó” anônima, que vem de gerações; uma vovó que vive gerações e que prognostica outras: Quando essas crianças tiverem cansado das brincadeiras de crianças, assumirão seus lugares… A todas acompanha o cipreste e sua sombra esguia.
 
Não sei quem pode ter plantado esse cipreste, confessa a velha vovó. Mas ela sabe que no ano passado, estes senhores (…), meus netos, ameaçaram derrubar o cipreste. E desconfia que, quando essas crianças tiverem cansado das brincadeiras de crianças, (…), com certeza, a sombra do cipreste terá deixado de entrar pela janela.
 
Para muitos povos, o cipreste é uma árvore sagrada. O seu verdor persistente e sua longevidade simbolizam a imortalidade. Na Antiguidade, porém, segundo Herder Lexikon, era considerado um símbolo da morte, pois que não cresce mais após ter sido cortado.
 
De qualquer forma, o cipreste é árvore que chama a atenção por seu porte esguio, severo e solitário, sempre verde e sempre em busca de mais alturas. Simbolizando a mortalidade humana ou a busca da eternidade, é sempre uma metáfora do ser.
 
Eu sou… À Sombra do Cipreste. O livro de Menalton Braff tirou-me um título, mas deu-me um Amigo. Hoje, o Menalton e eu correspondemo-nos, trocamos ideias e livros. De minha parte, tornei-me seu leitor entusiasmado.
 
Como diz o Scliar, ele é mesmo um notável contista. Provam-no as histórias deste À Sombra do Cipreste.
 
                                                    Roque Gonzales, janeiro/2000.
________________
*NELSON HOFFMAN é professor, escritor e crítico literário do Rio Grande do Sul traduzido para várias línguas; autor, entre outros, de Eu vivo só ternuras (novela) e A bofetada (romance)

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Autor

» Adelto Gonçalves

Jornalista com passagem em alguns dos maiores órgãos da Imprensa de São Paulo, professor univeresitário com doutorado pela USP (Univesidade de São Paulo), especialista em Literatura Portuguesa e Espanhola, autor de ensaios premiados, é também excelente ficcionista, como se pode comprovar neste romance "Os vira-latas da madrugada", um dos livros premiados, em 1980, no concurso de âmbito nacional promovido pela Livraria José Olympio Editora, que o lançou em 1981, e, trinta e quatro anos depois, é reeditado pela LetraSelvagem. "Adelto Gonçalves tem o dom de fazer viver suas personagens, convencendo o leitor de seu valor humano, mesmo quando suas ações, como as de Pingola e Quirino, lhe repugnem", escreveu Maria Angélica Guimarães Lopes, professora emérita da Universidade South Carolina, em resenha publicada na "Revista Iberoamericana", do Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, Universidade de Pittsburg, EUA, janeiro de 1985.

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