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Atualidade em Lima Barreto
Página publicada em: 26/08/2009
Lincoln Pinheiro Costa*
Se depois deste artigo, um único leitor se interessar pela obra de Lima Barreto, já valeu a pena tê-lo escrito (*Artigo publicado originalmente no site: www.portalibahia.com.br/falabahia)

 
 
Amigo leitor, neste artigo vou tratar de um assunto que é um luxo. Luxo indispensável como a água e o ar: a literatura.
 
Brasileiro lê pouco e assiste muito à tv. As novelas continuam batendo recordes de audiência.
Não é difícil encontramos universitários – e até doutores – que nunca leram Machado de Assis. Lima Barreto então…
 
Li recentemente obra de vulto desse grande escritor brasileiro: Recordações do Escrivão Isaías Caminha.
 
Escrita em 1908, retrata a imprensa da época, mas parece estar falando da mídia dos dias de hoje.
 
Narrada em primeira pessoa e tendo como personagem o doutor Ricardo Loberant, diretor-proprietário do diário O Globo, Caminha, que foi contínuo da redação daquele periódico e, posteriormente, repórter relata:
 
“Nos jornais do Rio, os seus sacerdotes consumados entendem por artigo pesado os extensos ou aqueles que não desenvolvem, até à tolice minuciosa, noticias de crimes sensacionais et reliqua. Nada influi para modificar-lhes o julgamento a atração do artigo, já pelo assunto, já pelo modo de tratá-lo, já pelo estilo do escritor. Desde que não se trate de crimes espantosos, de idiotas intrigas políticas, uma crônica mais pensada ou um artigo mais estudado será refugado como pesado. A gente dos jornais do Rio só tem idéias feitas e clichés de opiniões de toda a natureza incrustados no cérebro.”
 
O parágrafo acima parece estar comentando as edições atuais dos jornais, mais interessados em escândalos e crimes do que em analisar os fatos, ouvir todas as partes e revelar os interesses que estão por trás das notícias.
 
“As conversas da redação tinham-me dado a convicção de que o doutor Loberant era o homem mais poderoso do Brasil; fazia e desfazia ministros, demitia diretores, julgava juizes e o presidente, logo ao amanhecer, lia o seu jornal, para saber se tal ou qual ato seu tinha tido o placet desejado do doutor Ricardo.”
 
“Dai a receptividade do público por aquela espécie de jornal, com descomposturas diárias, pondo abaixo um grande por dia, abrindo caminho, dando esperanças diárias aos desejosos, aos descontentes, aos aborrecidos.”
 
Os torpedos lançados diariamente pela mídia contra os inimigos da vez, até sua queda, são práticas ainda correntes. Afastada a autoridade, a imprensa esquece aquelas mazelas e vai em busca de outro escândalo para entreter o público.
 
“Loberant sabia o segredo do seu sucesso e velava pela folha com cuidados especiais. Diariamente lhe vinham informações sobre a venda avulsa, sobre o movimento de anúncios. Se decaiam um pouco, logo procurava um escândalo, uma denúncia, um barulho, em falta um artigo violento fosse contra quem fosse. Havia na redação farejadores de escândalos; um, para os públicos; outro, para os particulares.”
 
Até mesmo a publicação de transcrições de diálogos telefônicos obtidas ilicitamente a mídia quer publicar. E se são impedidos pela Justiça, os donos dos jornais e suas entidades afirmam que estão sendo censurados!
 
Ora, a liberdade de expressão não abrange o direito de caluniar nem o direito de publicar inquéritos protegidos pelo sigilo legal.
 
Apesar da imunidade tributária de que goza o livro e o papel destinado à sua impressão, ainda se trata de um artigo de luxo no Brasil, chegando muito caro ao consumidor final. A boa notícia é que “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” já caiu no domínio público e pode ser lido gratuitamente: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000157.pdf .

Se depois deste artigo, um único leitor do Fala Bahia se interessar pela obra de Lima Barreto, já valeu a pena tê-lo escrito.
 
__________________
*Lincoln Pinheiro Costa é juiz federal em Belo Horizonte e ex-procurador da Fazenda Nacional em Salvador. É graduado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) e MBA em Direito da Economia e da Empresa pela FGV. É membro do Instituto San Tiago Dantas de Direito e Economia.
 
 

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Autor

» Edson Amâncio

Edson Amâncio nasceu a primeiro de janeiro de 1948, em Sacramento-MG, e vive em São Paulo. Pertence à nobre estirpe de escritores (infelizmente em extinção) da qual fazem parte Machado de Assis ("Quincas Borba", "O alienista"), Graciliano Ramos ("Angústia"), Dyonelio Machado ("Os ratos", "O louco do Cati") e Dostoiévski ("Notas do subsolo", "Memórias da casa dos mortos").

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